Antes de falar dos sinais, eu preciso que você entenda o mecanismo do que acontece dentro das suas artérias. Porque quando você entende o que está acontecendo dentro do seu corpo, tudo faz muito mais sentido.
Imagine que as artérias são canos de água. Canos novos são limpinhos, lisos por dentro, e a água passa facilmente. Mas com o tempo, dependendo de como a pessoa vive, se alimenta, se pratica exercício, se tem excesso de peso, pressão alta, diabetes ou colesterol elevado, esses canos vão acumulando depósitos de gordura nas paredes.
Nas nossas artérias, esses depósitos se chamam placas de ateroma. São formadas por colesterol, cálcio, gordura, células inflamatórias e outras substâncias que vão se acumulando e grudando ali na parede arterial. Esse processo tem um nome: aterosclerose. E ele pode se desenvolver por anos, em completo silêncio, sem dar nenhum sinal.
O detalhe que assusta: na grande maioria das vezes, os sintomas só aparecem quando a artéria já perdeu mais de 70% do seu espaço interno para o fluxo de sangue. Pensa num cano entupido em 70%. A água ainda passa, mas passa com dificuldade, com menos força. O mesmo acontece com o sangue: ele flui em menor quantidade, leva menos oxigênio e menos nutrientes para o músculo cardíaco, e é aí que o sofrimento começa e os sintomas aparecem.
Mas o problema não é só o estreitamento progressivo. O perigo real está em outro lugar: quando essa placa se rompe, o organismo tenta tampar o rompimento e forma um coágulo. Esse coágulo pode bloquear a artéria completamente em questão de segundos. E é exatamente aí que acontece o infarto. É aí que acontece o AVC. Reconhecer os sinais precoces pode literalmente salvar a sua vida. Então vamos a eles.
Sinal 1: dor ou pressão no peito (angina)
Eu sei o que você está pensando: “Mozar, esse é o básico.” Tudo bem, eu começo por ele, mas quero que você entenda alguns detalhes que muita gente ainda deixa passar.
Deixa eu te contar o caso do seu Roberto. Ele tem 58 anos, é gerente numa empresa, sempre muito ocupado e estressado. Fazia caminhada de manhã, mas havia alguns meses vinha sentindo uma pressão no peito quando andava mais rápido ou subia uma rua íngreme. Parava, descansava, e a pressão sumia. Ele foi logo concluindo que era refluxo, porque tinha queimação também e já tinha histórico de gastrite. Passou meses tomando antiácido por conta própria. Quando chegou ao meu consultório para um check-up corporativo, não por causa desses sintomas, fizemos alguns exames e o teste ergométrico veio alterado.
Essa pressão que o seu Roberto sentia tem nome: angina. E ela pode se apresentar de formas muito variadas. Os pacientes descrevem como pressão, aperto, peso, queimação, azia. Tem gente que fala: “Doutor, parece que tem um elefante sentado aqui no peito.” Pode irradiar para o braço esquerdo, para o braço direito, para o pescoço, para as costas, para a mandíbula. Tem paciente que acha que é dor de dente e vai ao dentista antes de vir ao cardiologista.
Um mito que eu preciso quebrar aqui: muita gente acredita que dor no coração é sempre aquela dor aguda, em pontada, insuportável, igual à dos filmes. Não é assim. A dor do próprio infarto pode ser um desconforto leve que vai e vem, especialmente em mulheres, em diabéticos e em pacientes idosos, que apresentam sintomas muito mais sutis.
Se você sentir qualquer pressão ou desconforto no peito que aparece com esforço físico ou estresse emocional e melhora com o repouso, não ignore. Procure um cardiologista.
Sinal 2: falta de ar desproporcional ao esforço
Esse é o que eu chamo de sinal travestido de sedentarismo. A pessoa fica sem ar ao subir uma escada e pensa que é porque está fora de forma. Pode até ser. Mas em muitos casos é muito mais do que isso.
Quando as artérias coronárias, que são as artérias responsáveis por irrigar o músculo cardíaco, estão estreitadas, o coração não recebe sangue suficiente para trabalhar bem, especialmente durante atividades físicas. Então a falta de ar durante esforços leves como subir uma escada, caminhar um pouco mais rápido, limpar a casa, varrer o chão ou até tomar banho pode ser um sinal de doença nas artérias do coração.
A chave aqui é perceber a mudança. Se antes você subia dois ou três lances de escada sem nenhum problema e agora fica sem ar para isso, preste atenção. Se antes você subia uma ladeira com um cansaço normal e agora ela parece muito mais pesada, preste atenção. Essas mudanças no seu desempenho físico habitual são um recado que o seu corpo está te dando.
E um ponto importante: a falta de ar pode aparecer sozinha, sem nenhuma dor no peito. Às vezes esse é o único sintoma que o paciente me relata. Não normalize o que não é normal.
Sinal 3: fadiga e cansaço excessivo sem explicação aparente
Esse cansaço não é aquele de trabalhar muito, dormir pouco ou ter uma semana difícil. É um cansaço para tudo, para qualquer tarefa básica do dia a dia, que chega do nada, que não passa mesmo quando você dorme bem, quando o final de semana chega e você finalmente descansa.
Eu sei que a lista de causas para fadiga é longa: sedentarismo, sono ruim, apneia, estresse, alterações de tireoide, anemia, deficiência de vitaminas. Pode ser muita coisa. Mas um cansaço persistente, sem causa aparente, especialmente em mulheres e em pessoas mais idosas, onde o sintoma clássico de dor no peito é menos frequente, sempre deve levantar uma hipótese: o coração precisa ser investigado.
Quando o fluxo de sangue para o músculo cardíaco está reduzido por artérias comprometidas, o coração trabalha com menos eficiência. E essa ineficiência se traduz no corpo como uma sensação de peso, moleza e falta de disposição que não tem explicação aparente. Se você reconhece esse padrão, investigue seu coração.
Sinal 4: tontura, enjoo e sensação de cabeça vazia
Esse sinal me preocupa muito porque é o mais confundido de todos. As pessoas associam tontura com pressão baixa, com calor, com falta de água, com labirintite. E pode ser mesmo. Mas também pode ser o coração.
Quando a artéria está estreitada e o fluxo de sangue é insuficiente para nutrir o músculo cardíaco, o coração pode não bombear de forma eficiente. E quando ele não bombeia direito, menos sangue chega aos órgãos do corpo, incluindo o cérebro. Isso se traduz em tontura, sensação de desequilíbrio, aquela sensação de que você vai desmaiar mas não desmaia, uma cabeça vazia que não passa.
Esses sintomas tendem a aparecer principalmente durante esforço físico ou situações de estresse intenso, porque nesses momentos o organismo libera hormônios que aceleram o coração e aumentam a pressão. Um coração com artérias comprometidas pode não dar conta dessa demanda, e os sintomas que aparecem podem ser apenas esse enjoo, apenas essa tontura.
Aqui vai um alerta importante: se a tontura vier acompanhada de fraqueza em um lado do corpo, dificuldade para falar ou queda de um lado da boca, ligue imediatamente para o SAMU ou vá à emergência. Esses sinais podem indicar um AVC, que também ocorre quando uma artéria que irriga o cérebro é bloqueada. Não perca tempo.
Sinal 5: nenhum sinal
Esse é o mais traiçoeiro. E o mais importante que eu queria que você soubesse antes de fechar esse post.
Muitas pessoas não percebem absolutamente nenhum sinal de que suas artérias estão entupidas até que um evento grave aconteça: um infarto, um AVC. E não é um número pequeno de pessoas. Em um estudo com mais de 25.000 pessoas entre 50 e 64 anos que não sabiam ter doença nas artérias do coração, foi realizada uma tomografia das coronárias para verificar a presença de placas. O resultado foi impactante: 42% dessas pessoas tinham placas nas artérias do coração e não tinham nenhum sintoma. Não sabiam de nada. Quase uma em cada duas pessoas, família.
Isso acontece porque a placa de ateroma pode crescer por décadas em silêncio. Ela não surge de uma hora para outra. Ela vai se acumulando aos poucos, durante anos, sem causar dor, sem causar cansaço, sem dar nenhum aviso. Até o dia em que uma dessas placas se rompe, o sangue coagula em volta dela em frações de segundo, a artéria fecha completamente, e acontece o infarto.
E eu preciso reforçar esse ponto porque é fundamental: o maior risco não é necessariamente o estreitamento progressivo da artéria. É a ruptura da placa. Um paciente pode ter uma placa que ocupa 40% ou 50% da artéria, aparentemente pequena, e ela se romper e causar um infarto fulminante. Por isso a prevenção e o diagnóstico precoce salvam vidas de uma forma que nenhum tratamento de emergência consegue substituir.
Como detectar antes dos sintomas
Existem exames que conseguem identificar a presença de placas muito antes de qualquer sintoma aparecer. Dois deles são especialmente importantes e ainda subestimados no Brasil.
O primeiro é o escore de cálcio coronariano, uma tomografia simples que mede a quantidade de cálcio depositada nas artérias do coração. O segundo é a angiotomografia de coronárias, um exame mais detalhado que visualiza diretamente a anatomia das artérias. Eu sei que esses exames têm um custo considerável. Mas para o paciente certo, no momento certo, eles podem mudar completamente o rumo do tratamento e da vida de uma pessoa.
Quando o paciente descobre que tem uma placa no coração, algo muda. Ele para de fumar, passa a se exercitar, controla o peso, leva o colesterol a sério. O diagnóstico precoce tem um poder motivacional que nenhuma conversa de consultório substitui.
Além desses dois exames, existem outros recursos que o cardiologista pode indicar de acordo com cada caso: o teste ergométrico, a cintilografia miocárdica e o ecocardiograma com estresse são exemplos de exames que, de forma indireta, mostram se as artérias estão comprometendo o funcionamento do coração.
Quem precisa ficar mais atento
Se você tem pressão alta, colesterol elevado, diabetes, histórico familiar de infarto ou AVC, se você fuma, se consome álcool em excesso, se é sedentário, se está acima do peso, se vive sob estresse crônico ou dorme mal, minha orientação é clara: não espere aparecer nenhum sintoma. Converse com um cardiologista, faça uma avaliação, faça um check-up. Prevenção não é paranoia. É inteligência.
Um número que você não pode esquecer
50% das mortes por infarto acontecem nas primeiras três a quatro horas após o início dos sintomas. Cada minuto conta. Se você ou alguém ao seu lado sentir uma dor forte no peito, ficar pálido, nauseado, desmaiar, tiver falta de ar grave ou tontura súbita, vá ao pronto-socorro imediatamente. Não espere para ver se passa. Não dirija sozinho. Procure ajuda o mais rápido possível.
Recapitulando os cinco sinais
- Pressão ou dor no peito, a angina, especialmente quando aparece com esforço e melhora com repouso
- Falta de ar desproporcional ao esforço físico, mesmo que ele seja leve
- Cansaço excessivo e persistente, sem causa aparente, especialmente em mulheres e idosos
- Tontura, enjoo e sensação de cabeça vazia, principalmente durante esforço ou estresse
- Nenhum sintoma, o silêncio traiçoeiro que só um acompanhamento médico regular consegue quebrar
Cuide do seu coração antes que ele precise pedir socorro
Família do coração, o coração avisa. Nem sempre da forma que a gente espera, nem sempre com a intensidade que a gente imagina, e às vezes não avisa de jeito nenhum. Por isso o acompanhamento cardiológico regular não é um luxo, é uma necessidade. Não deixe para depois. Não espere a emergência para tomar uma decisão que você pode tomar hoje.
Se você se identificou com algum desses sinais, ou se faz parte do grupo de risco que eu mencionei, marque uma consulta. Eu atendo presencialmente em São
Paulo e por teleconsulta em todo o Brasil.
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