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Neoplasia da região cervical: o câncer de Luis Roberto que serve de alarme

Neoplasia da região cervical: o câncer de Luis Roberto que serve de alarme

Uma das vozes mais icônicas do esporte brasileiro, o narrador Luís Roberto revelou que ficará de fora da Copa do Mundo de 2026. A decisão foi motivada por um diagnóstico que ele recebeu recentemente de Neoplasia Cervical. Os detalhes sobre a doença não foram informados mas a presença de um “caroço no pescoço” é uma das queixas mais comuns na prática clínica. Nem todo nódulo é câncer na verdade, cerca de 95% das massas cervicais são benignas. Porém, todo nódulo persistente precisa ser avaliado com atenção, pois identificar rapidamente os casos malignos é fundamental para o prognóstico.

Quando falamos em “massa cervical”, estamos nos referindo a qualquer lesão anormal visível, palpável ou detectada por exame de imagem, localizada abaixo da mandíbula, acima da clavícula e profunda à pele. Essas massas podem surgir em diferentes estruturas: linfonodos, glândulas (tireoide, salivares, paratireoide), tecidos moles, cistos congênitos ou por disseminação de tumores de outras regiões.

1. O que é uma massa cervical?

Uma massa cervical pode representar desde condições benignas e autolimitadas até neoplasias malignas. A classificação mais útil na prática é baseada no tempo de evolução:

  • Aguda (dias a semanas): geralmente infecciosa ou inflamatória (ex.: linfadenite bacteriana, mononucleose, doença da arranhadura do gato)
  • Subaguda (semanas a meses): maior preocupação com neoplasias (linfomas, metástases, carcinoma espinocelular de orofaringe associado ao HPV) e doenças sistêmicas (sarcoidose, síndrome de Sjögren)
  • Crônica (meses a anos): cistos congênitos (cisto do ducto tireoglosso, cisto branquial), patologias tireoidianas, paragangliomas

2. Quais são as principais causas?

As massas cervicais podem ser organizadas nos seguintes grupos:

Linfonodais

  • Linfadenite reativa (infecções virais, bacterianas)
  • Linfomas (Hodgkin e não Hodgkin)
  • Metástases de tumores de cabeça e pescoço (cavidade oral, orofaringe, laringe)
  • Metástases de tumores à distância (pulmão, mama, trato gastrointestinal, pele)

Glândulas

  • Tireoide: nódulos benignos (presentes em até 68% da população à ultrassonografia) ou câncer de tireoide
  • Glândulas salivares: tumores benignos (adenoma pleomórfico) ou malignos
  • Paratireoide: adenomas ou, raramente, carcinoma

Cistos congênitos

  • Cisto do ducto tireoglosso (linha média, eleva-se com a deglutição)
  • Cisto branquial (lateral, anterior ao esternocleidomastóideo — causa mais comum de massa cervical lateral crônica em adultos com menos de 40 anos)
  • Cisto dermoide (raro, região submentoniana)

Tumores de partes moles

  • Lipomas (benignos, comuns)
  • Lipossarcomas e outros sarcomas (raros, porém agressivos)

Vasculares

  • Paragangliomas (tumores do corpo carotídeo, glomus vagal ou jugular)

3. Fatores de risco para malignidade

Existem características que aumentam significativamente a suspeita de que um nódulo cervical seja maligno:

  • Idade acima de 40 anos
  • Tabagismo e consumo de álcool (fatores sinérgicos para carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço)
  • Infecção por HPV (principalmente HPV-16, responsável por 60% a 70% dos novos diagnósticos de carcinoma espinocelular de orofaringe nos EUA e Europa)
  • Histórico prévio de câncer de cabeça e pescoço ou exposição à radiação
  • Múltiplos parceiros sexuais com história de contato orogenital (fator de risco para carcinoma de orofaringe HPV-positivo)

Nota importante sobre o HPV: o carcinoma espinocelular de orofaringe associado ao HPV é hoje o câncer mais comum mediado por HPV, com incidência anual de aproximadamente 34.000 casos nos EUA — superando os cânceres de colo uterino, vagina e vulva combinados. Pacientes com tumores HPV-positivos tendem a ser mais jovens (mediana de 54 anos), com melhor prognóstico em comparação aos tumores HPV-negativos.

4. Quando se preocupar com um caroço no pescoço?

Segundo a diretriz da American Academy of Otolaryngology–Head and Neck Surgery, as seguintes características isoladas já indicam risco aumentado de malignidade:

  • Massa presente há 2 semanas ou mais, sem causa infecciosa evidente
  • Nódulo fixo (mobilidade reduzida)
  • Consistência endurecida
  • Tamanho maior que 1,5 cm
  • Ulceração da pele sobrejacente

Sinais e sintomas adicionais que reforçam a suspeita:

  • Rouquidão ou mudança recente na voz
  • Dificuldade ou dor para engolir (disfagia/odinofagia)
  • Dor de ouvido do mesmo lado da massa (otalgia ipsilateral)
  • Dor de garganta persistente
  • Perda de peso inexplicada
  • Assimetria tonsilar
  • Lesões cutâneas na face, pescoço ou couro cabeludo
  • Sudorese noturna e febre (especialmente em linfomas)

Atenção: massas císticas no pescoço em pacientes acima de 40 anos têm prevalência de malignidade de até 80%. Nunca assuma que uma massa cística é benigna sem investigação adequada.

5. Como é feita a investigação?

A avaliação segue uma abordagem estruturada:

  1. História clínica e exame físico

Avaliação detalhada do tempo de evolução, sintomas associados, fatores de risco e características do nódulo. O exame físico direcionado deve incluir visualização da mucosa da laringe, base da língua e faringe (idealmente por nasolaringoscopia).

  1. Exames de imagem
  • Ultrassonografia: primeira linha para massas tireoidianas, parotídeas e salivares
  • Tomografia computadorizada com contraste: exame inicial recomendado para massas não tireoidianas e não pulsáteis. O contraste é essencial para detectar abscessos, necrose linfonodal e relação com estruturas vasculares
  • Ressonância magnética com contraste: indicada quando há suspeita de envolvimento de nervos cranianos ou câncer de nasofaringe
  • Angiotomografia: para massas pulsáteis
  • PET-CT: para estadiamento e vigilância quando há suspeita de doença metastática
  1. Biópsia

A punção aspirativa por agulha fina (PAAF) é o método de biópsia recomendado como primeira linha. Na detecção de malignidade, a PAAF apresenta acurácia de 93%, sensibilidade de 90% e especificidade de 97%, independentemente do sítio anatômico. O risco de disseminação tumoral pelo trajeto da agulha é extremamente baixo (0,00012%).

A biópsia aberta (excisional) deve ser evitada sempre que possível, pois pode resultar em feridas que não cicatrizam, recorrência regional e metástases à distância quando não realizada como parte do tratamento definitivo. Quando necessária, deve ser precedida por exame sob anestesia do trato aerodigestivo superior.

Não prescreva antibióticos de rotina para massas cervicais sem sinais e sintomas de infecção bacteriana.

6. Tratamento: depende da causa

O tratamento varia conforme o diagnóstico:

Condições benignas

  • Infecções: tratamento antimicrobiano direcionado
  • Cistos congênitos: excisão cirúrgica quando indicada
  • Nódulos tireoidianos benignos: acompanhamento com ultrassonografia
  • Lipomas: observação ou excisão eletiva

Tumores malignos

O tratamento depende do tipo, localização e estágio:

  • Doença localizada (estágios I-II): cirurgia isolada ou radioterapia isolada, com sobrevida em 5 anos de 70% a 90%
  • Doença locorregionalmente avançada (estágios III-IV): tratamento multimodal com cirurgia seguida de radioterapia (com ou sem quimioterapia) ou quimiorradioterapia concomitante. Sobrevida em 5 anos de 25% a 60% para tumores HPV-negativos e acima de 80% para câncer de orofaringe HPV-positivo
  • Doença recorrente/metastática: imunoterapia (pembrolizumabe) isolada ou combinada com quimioterapia à base de platina. Sobrevida mediana de 12 a 15 meses

Para linfomas, o tratamento segue protocolos específicos de quimioterapia, imunoterapia e/ou radioterapia.

O câncer de tireoide, quando diagnosticado precocemente, costuma ter excelente prognóstico.

7. Prognóstico: por que o diagnóstico precoce muda tudo?

O fator mais importante no desfecho é o estágio da doença no momento do diagnóstico:

  • Doença localizada (30% dos casos na apresentação): sobrevida em 5 anos de 70% a 90%
  • Doença locorregionalmente avançada (50-60% dos casos): sobrevida em 5 anos de 25% a 60%
  • Doença recorrente/metastática (10-20% dos casos): sobrevida em 5 anos inferior a 20%

Atrasos diagnósticos de 3 a 6 meses são relatados na literatura e estão associados a piores desfechos, maiores taxas de recorrência e aumento da mortalidade. Além disso cessação do tabagismo no momento do diagnóstico ou nos 12 meses seguintes está associada a melhora na sobrevida global.

Portanto: Uma massa cervical não é um diagnóstico único, mas sim um conjunto amplo de possibilidades que vão desde condições benignas e autolimitadas até cânceres potencialmente graves. O desafio está em diferenciar rapidamente o que é simples do que pode ser perigoso.

Na prática clínica, o maior erro não é investigar demais — é investigar de menos. Um simples “caroço no pescoço” pode ser a primeira pista de uma doença importante.

Então procure atendimento médico imediatamente se você percebeu um nódulo no pescoço que: 

  • Apareceu no contexto de uma infecção e está melhorando → provavelmente benigno, mas reavalie em 2 semanas
  • Persistiu por mais de 2 a 3 semanas sem causa infecciosa → precisa investigar
  • Está crescendo, endurecido, fixo ou maior que 1,5 cm → investigar com prioridade
  • Está associado a rouquidão, dificuldade para engolir, dor de ouvido ou perda de peso → procure avaliação médica urgente

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