Nos últimos dias o Brasil inteiro ficou falando sobre uma notícia que mistura celebridade, alimentação e saúde: Gisele Bündchen revelou em seu livro Nutrir: Receitas Simples para Corpo e Alma que abandonou a dieta vegana após desenvolver anemia persistente e desconfortos digestivos sérios que não cederam nem com suplementação e acompanhamento especializado. O caso da modelo escancarou uma pergunta que eu recebo com frequência no consultório: afinal, a dieta vegana faz bem à saúde cardiovascular ou não?
Hoje quero compartilhar com vocês o que a ciência realmente diz sobre esse tema, sem modismo e sem julgamento.
O que aconteceu com Gisele Bündchen
Durante anos seguindo uma dieta baseada exclusivamente em vegetais, a modelo enfrentou quadros de anemia que persistiram mesmo com suplementação de ferro e aumento do consumo de alimentos como lentilha, oleaginosas e folhas verde-escuras. Para compensar a falta de proteínas, ela precisou aumentar muito o consumo de feijão, o que causou inchaço e gases constantes. Foi um médico quem sugeriu a reintrodução de proteína animal no cardápio.
O desfecho foi pragmático: atualmente a alimentação de Gisele é composta majoritariamente por itens vegetais, mas com presença de produtos de origem animal, numa divisão de cerca de 80% vegetal e 20% animal.
Isso não é fracasso. É medicina aplicada à vida real.
O que os estudos mostram sobre dieta vegana e coração
Vamos ao que eu posso afirmar com base em evidências.
A literatura científica acumulada nos últimos anos é consistente ao mostrar benefícios cardiovasculares relevantes em dietas predominantemente baseadas em plantas. Uma revisão sistemática publicada no Nutrients avaliou estudos observacionais e de intervenção e identificou associações claras entre esse padrão alimentar e melhora no perfil lipídico, redução da pressão arterial e controle do peso corporal.
Uma meta-análise de 8 estudos prospectivos conduzidos em Adventistas do Sétimo Dia encontrou que dietas vegetarianas foram associadas a uma redução de aproximadamente 40% no risco de eventos de doença coronariana e de 29% no risco de eventos cerebrovasculares, em comparação com não vegetarianos.
As diretrizes conjuntas de 2019 do American College of Cardiology e da American Heart Association recomendam uma dieta com ênfase em vegetais, frutas, legumes, oleaginosas, grãos integrais e peixe como estratégia de nível I de evidência para reduzir o risco cardiovascular aterosclerótico.
Isso não é opinião. É o que as maiores sociedades de cardiologia do mundo recomendam.
Mas então por que o caso de Gisele aconteceu?
Porque existe uma diferença enorme entre uma dieta baseada em plantas bem planejada e uma dieta vegana feita sem suporte adequado.
Grandes sociedades científicas, como a Academy of Nutrition and Dietetics, reconhecem que dietas veganas são adequadas em todas as fases da vida, desde que bem planejadas e acompanhadas. O ponto central, segundo especialistas, não é “ser vegano”, mas como ser vegano: uma dieta vegana segura não é intuitiva, ela é estruturada, monitorada e personalizada.
Nutrientes que merecem atenção especial em quem segue esse padrão alimentar:
- Ferro: a forma não-heme presente nos vegetais tem absorção inferior à forma heme da carne vermelha. A associação com vitamina C (laranja, acerola, limão) aumenta significativamente essa absorção.
- Vitamina B12: praticamente ausente em alimentos de origem vegetal. Suplementação é obrigatória.
- Proteínas: é possível atingir a necessidade diária com fontes vegetais, mas exige variedade e planejamento.
- Ômega-3: a forma presente em vegetais (ALA) tem conversão limitada para as formas ativas (EPA e DHA). Algas marinhas são a fonte vegetal mais confiável.
O caso da Gisele ilustra bem o que acontece quando o corpo de uma pessoa específica não responde como esperado, mesmo com cuidado. Isso não invalida os benefícios da dieta baseada em plantas para a população geral. Significa que nutrição é medicina individualizada.
Mitos frequentes sobre dieta vegana e coração
“Vegano não precisa de suplemento”
Precisa, sim. A vitamina B12, em especial, não existe em quantidade suficiente em nenhuma fonte vegetal. Sua deficiência causa dano neurológico irreversível e também compromete o metabolismo cardiovascular.
“Dieta vegana emagrece automaticamente”
Não necessariamente. Uma dieta vegana cheia de ultraprocessados, açúcar e gordura vegetal hidrogenada pode ser tão prejudicial quanto qualquer outra dieta de má qualidade.
“Quem come carne não pode ter coração saudável”
Isso também não é o que a ciência diz. O padrão alimentar importa mais do que a presença ou ausência de um único alimento. Uma revisão sistemática de 32 estudos longitudinais publicada em 2025 identificou que dietas baseadas em plantas promovem melhora metabólica, controle de peso, redução do risco cardiovascular e efeitos positivos na microbiota intestinal e nos marcadores inflamatórios, mas ressaltou que os resultados variam conforme a qualidade da dieta e as características individuais de cada pessoa.
O que eu recomendo na prática
Não existe um único padrão alimentar ideal para toda a humanidade. O que eu posso afirmar com segurança, como cardiologista, é que:
- Aumentar o consumo de vegetais, frutas, grãos integrais e oleaginosas beneficia o coração. Isso está além de qualquer dúvida.
- Reduzir o consumo de ultraprocessados, carnes processadas e gorduras trans é igualmente importante.
- Quem opta por uma dieta vegana ou vegetariana precisa de avaliação laboratorial periódica e acompanhamento de um profissional de saúde.
- Quem inclui carne na dieta deve priorizar qualidade e moderação, especialmente nas carnes vermelhas e processadas.
A Gisele tomou uma decisão baseada nos sinais do seu próprio corpo e com orientação médica. Isso é o que eu sempre peço para os meus pacientes: escutem o corpo, mas confiram com exames e com um médico de confiança.
Se você quer entender qual padrão alimentar faz sentido para o seu coração especificamente, essa conversa precisa acontecer no consultório. Cada histórico clínico, cada exame, cada fator de risco é diferente.
Agende sua consulta: wa.me/5511930433976
Siga nas redes sociais: YouTube: www.youtube.com/oseucardiologista Instagram: @dr.mozarsuzigan
