Cerca de 50% das pessoas que morrem de infarto e AVC têm pressão alta. E de todos os brasileiros que têm pressão alta, apenas 33% estão com ela controlada. Um paciente a cada três. No meio dessa conta entra uma mudança que confundiu muitos pacientes: pela atualização da diretriz brasileira, a pressão 12 por 8 não é mais classificada como normal.
Pensa na sua pressão como a água correndo dentro de artérias, que nada mais são do que canos. Se a pressão da água está tranquila, o cano dura a vida inteira. Se ela vive um pouco forte demais, todo dia, o ano inteiro, aquele cano vai sofrendo alterações que machucam ele por dentro.
1. Por que 12 por 8 saiu da faixa normal
Toda diretriz funciona como um mapa que os médicos seguem para entender quem deve receber o diagnóstico de pressão alta, quem deve tratar, quais são os melhores remédios e os melhores exames. São documentos muito grandes, feitos pelos maiores especialistas do país, e que vão sendo atualizados conforme a ciência avança.
Em 2025 a Sociedade Brasileira de Cardiologia atualizou essa diretriz. A primeira grande mudança foi essa: para a sua pressão ser considerada normal, ela precisa estar abaixo de 120 por 80. A sistólica, aquele número de cima, menor que 120. A diastólica, o número de baixo, menor que 80. Os dois abaixo.
De 120 por 80 até 139 por 89, a faixa passa a ser chamada de pré-hipertensão arterial.
Antes de você vir comentar que isso é coisa da indústria farmacêutica querendo vender remédio, entenda por que essa classificação foi feita. Os estudos mostraram que a partir de 12 por 8, quanto mais a pressão vai subindo, 125 por 85, 130 por 80, 135 por 85, maior vai sendo o risco de doença no coração, no cérebro e nos rins, e maior o risco desse paciente ter infarto, AVC e morrer precocemente.
A própria diretriz cita que a hipertensão é o principal fator de risco para morte no Brasil inteiro, porque é o principal fator de risco para AVC e para infarto, que são as duas principais causas que tiram a vida das pessoas.
2. O que significa estar na faixa de pré-hipertensão
Pré-hipertensão não é um nome bonito para dizer que está tudo bem. Quando eu falo que o paciente tem pré-hipertensão, eu estou dando um sinal amarelo para ele. Não é para entrar em pânico, mas também não é para ficar muito tranquilo. O corpo já está avisando que existem grandes chances desse paciente ganhar o diagnóstico de pressão alta nos próximos meses ou anos.
Essa faixa existe justamente para identificar cedo quem está em risco, enquanto o cano ainda não estourou e ainda não entupiu, mas já está trabalhando mais do que deveria. É a janela em que dá para agir de forma intensa e correta antes que venha o diagnóstico de pressão alta ou alguma doença mais séria.
E claro que 13 por 9 é pior do que 12 por 8, e que 138 por 82 é pior do que 12 por 8. De 12 por 8 para cima o risco já vai aumentando.
3. 13 por 8 já é diagnóstico de pressão alta?
Não. Pela diretriz brasileira, o carimbo de hipertensão arterial só é dado quando a pressão bate 140 por 90 ou mais, medida em mais de uma ocasião diferente. Enquanto você está em 138, você não é hipertenso. Você está naquela faixa de pré-hipertensão e de mais risco.
4. Quando entra o remédio para pressão
Essa é uma pergunta de ouro, e a resposta da diretriz não é a mesma para todo mundo. É aí que entra o especialista.
Para toda pessoa com pressão de 12 por 8 para cima, a recomendação número um, a mais forte perante a ciência e com mais alto nível de evidência, são as medidas não medicamentosas: melhorar o sono, reduzir o estresse, fazer meditação, reduzir bebida alcoólica, parar de fumar, comer menos sódio, comer alimentos mais ricos em potássio, manter uma dieta cheia de frutas, verduras, leguminosas e grãos, fazer mais atividade física e, para quem tem excesso de peso, controlar esse peso. Isso vale para todo mundo a partir de 12 por 8. Todo mundo.
Sobre o remédio, a diretriz separa três situações:
- Pressão de 14 por 9 para cima: o remédio é recomendado já na consulta, junto com todo o resto do cuidado.
- Pressão de 13 por 8 em paciente de alto risco cardiovascular: primeiro a gente trabalha o estresse, o sono, a atividade física, o peso. Se depois de 3 meses o paciente fez as mudanças e a pressão não melhorou, aí sim entra o remédio.
- Pressão de 13 por 8 sem alto risco cardiovascular: a gente continua observando e olhando a pressão desse paciente com mais frequência, porque a qualquer momento ela pode ir ficando mais alta.
E se entrou remédio, é para a vida toda? Não necessariamente. Às vezes o paciente perde peso no seguimento, ajusta o estresse, trata a ansiedade, faz atividade física, para de fumar, e com o tempo aquele remédio pode sair ou a dose pode ser reduzida. Tudo isso com acompanhamento médico, porque eu não posso prescrever nada pelo blog.
5. Como saber se você é de alto risco cardiovascular
O tema é complexo, mas dá para simplificar. Se você tem doença cardíaca prévia, diabetes, doença renal ou colesterol muito alto, você já é considerado de alto risco.
Se você não tem nenhuma dessas condições, a gente usa um escore chamado PREVENT. Ele junta a sua idade, o seu colesterol, se você tem diabetes, a função do seu rim, o seu histórico, o seu IMC, se você tem pressão alta, se você usa remédio para colesterol, quanto está o valor da sua pressão, o seu sexo, entre outros dados. E devolve o cálculo da sua chance de ter uma doença cardiovascular em 10 e em 30 anos.
É por isso que dois pacientes com a mesma pressão de 13 por 8 podem sair do consultório com orientações completamente diferentes. Um leva só mudança de estilo de vida, o outro leva remédio já na primeira consulta.
6. Sua pressão não é um número fixo
Estou cansado de ouvir paciente dizer que a pressão dele é ótima. Quando foi a última vez que você mediu? Faz 3 anos.
A pressão arterial é dinâmica. Se eu medir mil vezes no mesmo dia, eu vou ter mil medidas diferentes. A sua pressão hoje pode não ser igual amanhã.
Medir uma vez por ano é uma medida em 365 dias. Estatisticamente isso é muito ruim. Por isso é importante ter um aparelho de pressão em casa e medir direitinho. Se você não tem aparelho, meça na farmácia ou no posto de saúde. Mas olhe mais de uma vez por ano, por favor.
7. Não existe comprimido mágico nem chá milagroso
Não existe comprimido mágico e não existe o chá milagroso que você vê guru e blogueiro orientando na internet. Você precisa fazer a sua parte.
E se você precisar de remédio, fique feliz. Hoje a gente tem muitas opções, tem remédio de graça no SUS e tem remédio muito avançado, que nada mais é do que uma tecnologia para te proteger. Há 30, 40, 50 anos, quantas pessoas tiveram AVC, tiveram infarto e morreram antes da hora porque a pressão alta não tinha remédio para tratar. Remédio é tecnologia.
Meça a sua pressão essa semana, anote o número e leve para o seu médico avaliar junto com os seus outros fatores de risco. Se você está naquela faixa de 12 por 8 para cima, comece hoje pelo sal da comida, pela caminhada, pelo sono e pelo estresse. Parece bobinho, mas faz muita diferença e muda o seu futuro.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica individualizada. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure seu médico.
Editor Chefe: Dr. Mozar Suzigan de Almeida, Médico Clínico Geral e Cardiologista, CRM 161706
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