Você já ouviu alguém dizer que uma pessoa é “louca”, “instável” ou “dramática demais”? Que muda de humor “sem motivo”? Que ora ama você intensamente, ora te odeia com a mesma intensidade? Existe uma boa chance de que essa pessoa não seja difícil de propósito. Existe uma boa chance de que ela esteja sofrendo de uma condição clínica real, séria e ainda profundamente estigmatizada: o Transtorno de Personalidade Borderline.
Recentemente, em uma entrevista, a modelo e atriz Andressa Urach falou abertamente sobre seu diagnóstico, suas internações psiquiátricas, suas crises e sua decisão de não usar medicação. A entrevista viralizou, gerou julgamentos, opiniões e, como sempre acontece nesses casos, muito ruído. Mas por baixo de todo o sensacionalismo há uma oportunidade importante: entender de verdade o que é o borderline, o que acontece no cérebro de quem tem esse transtorno e por que o tratamento faz toda a diferença.
O que é o Transtorno de Personalidade Borderline?
O Transtorno de Personalidade Borderline é caracterizado por um padrão generalizado de instabilidade e hipersensibilidade nos relacionamentos interpessoais, instabilidade na autoimagem, flutuações extremas de humor e impulsividade. O nome vem do inglês “borderline”, que significa “limítrofe” ou “fronteira”. A pessoa vive emocionalmente no limite, como se estivesse sempre na beira de um precipício emocional.
O quadro consiste em instabilidade persistente nos relacionamentos, na autoimagem e nas emoções, bem como em acentuada impulsividade. A persistência desses sintomas e seus efeitos sobre a funcionalidade do indivíduo são pontos-chave para o diagnóstico, conforme os critérios do DSM-5, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
Na entrevista, Andressa descreve muito bem esse estado ao falar sobre o termo: “É a fronteira que você está sempre à beira de uma mudança repentina.” Isso não é metáfora. É uma descrição clínica precisa.
Quem tem borderline e como o diagnóstico é feito?
O termo foi criado pelo psicanalista Adolph Stern em 1938 para descrever pacientes que estavam na fronteira entre a neurose e a psicose.
Estima-se que a prevalência do transtorno na população geral seja de 0,7% a 2,7%, com uma meta-análise recente estimando 2,4%. Em ambulatórios psiquiátricos, essa prevalência sobe para cerca de 12%, e entre pacientes em internação psiquiátrica, para cerca de 22%. Em ambientes clínicos, cerca de 72% dos diagnósticos são em mulheres. Porém, estudos populacionais mostram uma distribuição mais equilibrada entre os sexos, sugerindo que homens com borderline podem ser subdiagnosticados.
Estamos falando de milhões de brasileiros. Não é uma raridade. É uma condição subdiagnosticada, muitas vezes confundida com o transtorno bipolar ou tratada como “difícil de lidar”.
O diagnóstico é clínico, feito por psiquiatras ou psicólogos experientes, com base nos critérios do DSM-5, que exige a presença de pelo menos cinco dos nove sintomas centrais do transtorno. O processo inclui investigação de traumas prévios, especialmente vivências de abandono, abuso ou negligência na infância, além da exclusão de outros transtornos que possam explicar os sintomas.
Não existe exame de sangue, tomografia ou ressonância magnética que confirme o diagnóstico. Ele é feito com base em história clínica, comportamento e padrão de funcionamento emocional ao longo do tempo.
Os nove critérios que definem o borderline
Para que o diagnóstico seja feito, o DSM-5 exige que pelo menos cinco dos seguintes critérios estejam presentes:
- Esforços frenéticos para evitar o abandono real ou imaginário
- Relacionamentos interpessoais instáveis e intensos, com alternância entre idealização extrema e desvalorização total
- Perturbação da identidade: instabilidade na autoimagem e no senso de si mesmo
- Impulsividade em pelo menos duas áreas potencialmente autodestrutivas (gastos, sexo, abuso de substâncias, direção imprudente e compulsão alimentar)
- Comportamento, gestos ou ameaças suicidas recorrentes, ou comportamento automutilante
- Instabilidade afetiva com variações intensas de humor
- Sentimentos crônicos de vazio
- Raiva intensa e inapropriada ou dificuldade de controlá-la
- Ideação paranoide transitória ou sintomas dissociativos graves sob estresse
Quem acompanhou a entrevista de Andressa provavelmente reconheceu vários desses critérios em sua narrativa: o terror do abandono, a impulsividade, as internações, a raiva intensa, as decisões que ela própria descreve como “surtando”. Isso não é julgamento. É reconhecimento clínico.
O que acontece no cérebro de quem tem borderline?
Indivíduos com TPB frequentemente experimentam emoções intensas e de rápida mudança, têm dificuldade de regular essas emoções e se engajam em comportamentos impulsivos, incluindo automutilação recorrente e comportamentos suicidas. O transtorno afeta o funcionamento interpessoal e ocupacional, e as pessoas com TPB são grandes utilizadoras dos serviços de saúde.
A ciência aponta que há uma disfunção na regulação emocional em nível neurobiológico. A ciência mostra que há uma disfunção em circuitos cerebrais que regulam as emoções: a amígdala região do cérebro responsável por processar ameaças e emoções funciona de forma hiperativa, enquanto o córtex pré-frontal responsável pelo controle e pela razão funciona de forma reduzida. Isso significa que a pessoa sente as emoções com intensidade desproporcional e tem dificuldade biológica de regulá-las. O sofrimento é real e mensurável no cérebro.
O transtorno de personalidade borderline faz parte do grupo dos chamados “transtornos dramáticos”, no qual há baixo limiar à frustração, intolerância à solidão, limite tênue entre amor e ódio, e pensamentos autodestrutivos.
O caso de Andressa e o ponto mais importante: a medicação
Na entrevista, Andressa declarou que decidiu não tomar medicação, com autorização do médico, alegando que os remédios a deixavam “burra, sonolenta, lerda”. Ela diz que prefere se sentir “ativa, brincar, rir, ter resposta rápida”.
Eu entendo perfeitamente o desconforto que alguns medicamentos psiquiátricos causam, especialmente no início do tratamento ou quando a dose ainda não foi ajustada. Esse é um relato legítimo de muitos pacientes. Mas quero ser honesto com vocês sobre o que a ciência diz.
A base do tratamento para o TPB é a psicoterapia, não a medicação. Nenhum medicamento foi aprovado pelo FDA ou por agências reguladoras para tratar os sintomas centrais do borderline. Medicamentos podem ser úteis para tratar comorbidades graves, como depressão maior ou ansiedade severa, e em situações de crise aguda. Quando usados, devem ser por tempo limitado e com reavaliação periódica. A DBT é a psicoterapia mais estudada para o borderline, mas outras abordagens como a terapia baseada em mentalização (MBT) e a terapia focada na transferência também demonstraram eficácia em ensaios clínicos randomizados.
Isso significa que a medicação no borderline não é uma sentença vitalícia. Ela é um instrumento. E quando bem indicada e monitorada, pode fazer uma diferença enorme na qualidade de vida da pessoa.
A base do tratamento para o transtorno de personalidade borderline é a psicoterapia. O tratamento farmacológico inclui principalmente antidepressivos ISRS associados a estabilizadores de humor, sendo importante identificar e tratar os transtornos coexistentes para um resultado eficaz.
A terapia que realmente funciona: DBT
A Terapia Comportamental Dialética (DBT) foi desenvolvida por Marsha Linehan, pesquisadora da Universidade de Washington, a partir dos anos 1980. No Brasil, investigações clínicas e programas institucionais de DBT vêm demonstrando reduções importantes em comportamentos de risco e melhora significativa na regulação emocional.
O ensaio randomizado inicial de Linehan comparou um ano de DBT com o tratamento usual na comunidade. As pacientes que passaram pela DBT tiveram significativamente menos atos suicidas, menos dias de internação psiquiátrica, raiva menos intensa e funcionamento social mais alto. A taxa de retenção no tratamento foi de 83% para a DBT, versus 42% para o tratamento usual.
A DBT trabalha com quatro pilares fundamentais: regulação emocional, tolerância ao mal-estar, eficácia interpessoal e atenção plena. Em linguagem simples: ela ensina a pessoa a sentir sem ser destruída pelo que sente. A DBT é a psicoterapia mais estudada para o borderline, mas outras abordagens como a terapia baseada em mentalização (MBT) e a terapia focada na transferência também demonstraram eficácia em ensaios clínicos randomizados.
Mitos e perguntas que todo mundo faz
–“Borderline é frescura ou manipulação?”
Não. É uma condição neurobiológica com critérios diagnósticos estabelecidos, reconhecida pelos maiores manuais de psiquiatria do mundo. O diagnóstico precoce e a compreensão do TPB são essenciais para fornecer tratamento eficaz e reduzir o estigma associado.
–“Borderline tem cura?”
Estudos de longo prazo mostram que entre 50% e 70% dos pacientes atingem remissão dos sintomas. Porém, a recuperação funcional completa com bom funcionamento social e profissional é mais lenta e ocorre em cerca de 50% dos pacientes após 10 anos. A boa notícia é que, uma vez alcançada a remissão, ela tende a ser estável: apenas 11% dos pacientes que atingem remissão apresentam recaída.”
–“Quem tem borderline não consegue ter uma vida normal?”
As medidas terapêuticas podem melhorar a qualidade de vida dos pacientes e ajudar a manter relações saudáveis. As manifestações tendem a ser menores com o passar dos anos. Com tratamento adequado, muitas pessoas com TPB constroem relacionamentos estáveis, carreiras bem-sucedidas e uma vida com qualidade.
–“Se a pessoa não quer tomar remédio, não tem nada a fazer?”
Tem muito a fazer. A psicoterapia, especialmente a DBT, é indicada como pilar principal do tratamento. O que não se pode é abandonar o acompanhamento profissional por completo. A presença de um psiquiatra e de um psicólogo é insubstituível.
O que o caso de Andressa nos ensina além do sensacionalismo
Eu poderia ficar julgando as decisões de Andressa. Mas o que eu vejo, como médico, é uma pessoa que claramente sofre, que buscou ajuda diversas vezes, que verbalizou seu sofrimento em público com uma coragem que a maioria das pessoas não tem, e que ainda assim enfrenta um sistema que frequentemente falha com quem tem esse diagnóstico.
Não é raro que o borderline desenvolva transtornos coexistentes: prevalência ao longo da vida de transtornos de ansiedade em 84,5%, transtornos de humor em 82,7%, transtornos por uso de substâncias em 78,2%, TEPT em 30,2%, TDAH em 33,7%.
Casos complexos como o dela nos lembram que a saúde mental precisa de uma rede. Não basta um médico. É preciso psiquiatra, psicólogo, rede de apoio, continuidade do tratamento e, acima de tudo, ausência de julgamento.
Uma palavra final para quem se reconheceu nesse texto
Se você leu até aqui e pensou “isso me parece familiar”, não fique esperando. Não é fraqueza buscar ajuda. Não é loucura ter emoções que parecem maiores do que você consegue suportar. É uma condição com nome, com critérios, com tratamento e com prognóstico positivo.
Procure um psiquiatra. Procure um psicólogo.
Siga nas redes sociais: YouTube: www.youtube.com/oseucardiologista Instagram: @dr.mozarsuzigan
