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Aterosclerose silenciosa: 57% dos adultos têm placa nas artérias

Aterosclerose silenciosa: 57% dos adultos têm placa nas artérias

Um estudo com adultos entre 18 e 70 anos encontrou presença de placa de aterosclerose, a famosa plaquinha de gordura, em alguma artéria do corpo em 57% das pessoas. Nenhuma delas tinha diagnóstico prévio, nenhuma tinha tido infarto ou AVC. 

O que é a aterosclerose e por que ela é silenciosa

A aterosclerose é o acúmulo de colesterol, de células inflamatórias e de cálcio na parede das artérias. Esse acúmulo pode acontecer nas artérias do coração, do cérebro, das carótidas e das pernas, e vai se formando por décadas antes de o paciente sentir uma dor no peito ou ter um AVC.

Durante todo esse tempo, a pessoa não sente nada. A gente faz o exame, conta para o paciente que ele tem plaquinha no coração, e ele pode ter corrido uma maratona no dia anterior.

Para entender por que isso importa tanto: cerca de um terço das mortes no mundo são por doença cardiovascular. Uma pessoa a cada três. As principais doenças cardiovasculares são o infarto e o AVC, e a principal causa das duas é a aterosclerose. Prevenir aterosclerose significa prevenir infarto e AVC, que significa prevenir as principais causas de morte no Brasil e no mundo.

O que o estudo encontrou

O estudo foi publicado no New England Journal of Medicine, uma revista muito conceituada no meio da medicina, e avaliou pacientes de 18 a 70 anos que não tinham aterosclerose conhecida e nunca tinham tido infarto, AVC ou qualquer doença cardiovascular.

Foram feitos três exames: ultrassom de carótida, ultrassom da artéria femoral, que é aquela artéria que passa na virilha e leva sangue para a perna, e tomografia das artérias coronarianas, que são as artérias do coração. Sim, a gente pode ter plaquinha nas pernas também.

Quase 17.000 pacientes foram estudados, e cerca de 13.000 fizeram os três exames. Entre esses adultos, 57% tinham plaquinha em alguma artéria: 63% dos homens e 50% das mulheres.

A aterosclerose já aparece em gente jovem

Entre os adultos de 18 a 29 anos, um a cada 13 já tinha alguma plaquinha. Imagina uma sala de universidade. Quem imaginaria que uma pessoa a cada 13 ali dentro já tem evidência de aterosclerose?

Na faixa de 30 a 39 anos, 34,6% dos homens tinham plaquinha, ou seja, um a cada três. Nas mulheres, o número foi de 21,3%, uma a cada cinco.

E como a aterosclerose é uma doença progressiva, que vai aumentando com a idade, nos adultos de 60 a 70 anos apenas 1,9% dos homens não tiveram plaquinhas encontradas. Entre as mulheres, 8,1% não tiveram.

Por que as mulheres aparecem com números menores

As mulheres têm uma proteção cardiovascular dada pelos hormônios femininos, principalmente pelo estrogênio, até a chegada da menopausa. Por causa disso, elas costumam desenvolver doença cardiovascular mais ou menos 10 anos depois dos homens.

O que faz a plaquinha se formar

São vários fatores que aumentam o risco de formação de aterosclerose:

  • Colesterol LDL alto
  • Colesterol não HDL alto
  • Apolipoproteína B elevada
  • Lipoproteína(a) elevada
  • Resistência à insulina e açúcar alto no sangue
  • Diabetes
  • Estresse
  • Cigarro
  • Excesso de bebida alcoólica
  • Sedentarismo
  • Apneia do sono e sono de baixa qualidade
  • Pressão alta

O paciente precisa ter tudo isso para desenvolver aterosclerose? Não. Às vezes eu tenho um paciente triatleta que desenvolve aterosclerose, porque a genética pesa muito no risco cardiovascular de uma pessoa. Esse paciente tem só o colesterol um pouco alterado, mas tem todo um ambiente propício à formação de plaquinhas. Ao mesmo tempo, existe o paciente com vários fatores de risco que não forma plaquinha grande.

É justamente por isso que você precisa entender o seu risco. Cada paciente tem um risco diferente. Não é porque você não tem sintoma, não é porque seu irmão não sente nada, não é porque seu pai não se queixa de nada, que essas pessoas não têm doença e não estão sob risco. Muitos pacientes chegam dizendo: “doutor, tive infarto, mas eu só tinha pressão alta”. Já bastou para aquele paciente. “Mas eu só fumava pouquinho.” Já bastou para aquele paciente.

Por que descobrir a plaquinha muda o seu tratamento

Quando eu identifico que um paciente tem plaquinha, eu passo a classificar esse paciente como de alto risco cardiovascular. E isso muda a meta dele.

Para um paciente de alto risco, a meta de LDL colesterol passa a ser abaixo de 70. Muita gente olha o exame e fala: “sou jovem, meu colesterol é 110, não é muito alto”. Se você for um paciente de baixo risco cardiovascular, pela diretriz brasileira um LDL abaixo de 115 está ótimo. Agora, para um paciente de alto risco, um colesterol de 110 está fora da meta.

A partir dessa classificação, o controle do colesterol pode ser feito com estatina, ácido bempedoico, ezetimiba, inibidores de PCSK9, alimentação adequada, atividade física e outras medidas, sempre sob orientação médica e com a escolha individualizada para cada caso. Eu não posso prescrever nada pelo blog.

Junto disso, esse paciente precisa cuidar muito bem de todos os outros fatores de risco: perder gordura corporal, controlar o peso, fazer atividade física, controlar o estresse, controlar a pressão alta e controlar o açúcar no sangue. Diagnosticar cedo um colesterol alto, uma pressão alta, um diabetes e corrigir os hábitos de vida protege o paciente com o tempo não só de doença aterosclerótica, mas também de outras doenças, como câncer e Alzheimer.

A partir do momento em que ele sabe, esse paciente tem o poder nas mãos de mudar o futuro, para que essas plaquinhas não cresçam e não levem a um infarto aos 50, 60, 70 anos, a um AVC, à necessidade de colocar um stent, à angina, à insuficiência cardíaca, a uma arritmia grave ou a uma morte súbita. Identificar a plaquinha é uma oportunidade gigantesca de aumentar a longevidade e prevenir justamente as doenças que mais matam no mundo.

Ser jovem e não sentir nada não é garantia de que está tudo bem

O paciente jovem não está imune a doenças cardiovasculares. Um paciente que já tem plaquinha aos 30 anos, se a gente não cuidar, pode infartar daqui a 10, 20, 30 anos. Se a gente cuidar, talvez ele não tenha infarto nunca na vida.

Aquela história de que “é muito jovem para cuidar do colesterol” já caiu por terra. Quanto mais baixo o colesterol, menor o desenvolvimento de aterosclerose. Quanto menor a sua apolipoproteína B, menor o seu não HDL e menor o seu LDL colesterol, menor o seu risco de formar plaquinha.

O colesterol é o único fator que conta? Não. Existem pacientes com colesterol não muito alto que têm pressão descontrolada, genética ruim, diabetes, que fumam, e desenvolvem plaquinha do mesmo jeito. Mas os estudos são muito taxativos em mostrar que, quanto mais baixo eu deixo o colesterol de um paciente, no geral menor é a formação de plaquinha.

Se você nunca olhou para os seus fatores de risco porque é jovem, porque treina ou porque não sente nada, agende uma avaliação com um cardiologista e faça essa conta com quem entende do assunto. Descobrir a plaquinha cedo é o que dá tempo de mudar o desfecho.

Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica individualizada. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure seu médico.

Editor Chefe: Dr. Mozar Suzigan de Almeida, Médico Clínico Geral e Cardiologista, CRM 161706

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