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Extrassístoles: O Que São Essas Batidas Extras do Coração e Quando Elas Preocupam

Extrassístoles: O Que São Essas Batidas Extras do Coração e Quando Elas Preocupam

O seu coração tem um sistema elétrico próprio, que funciona como um maestro marcando o compasso de cada batida com uma regularidade impressionante. A extrassístole é uma batida que entra fora desse compasso, adiantada, antes da hora que deveria chegar. É esse desencontro que você sente como um tranco no peito, uma pausa estranha ou uma palpitação que sobe até o pescoço.

E aqui está o que costuma tranquilizar meus pacientes na consulta: a grande maioria das pessoas sem qualquer doença no coração apresenta alguma quantidade de extrassístoles quando faz um exame de Holter de 24 horas. Quase todo mundo vai ter alguma arritmia em algum momento da vida.

Isso faz parte.

Eu sei o que você está pensando: se é tão comum assim, por que tanta gente fica assustada? Porque a extrassístole assusta de verdade. Ela dá aquela sensação de que o coração parou, ou de que deu um solavanco no meio do peito. Neste post eu vou responder cinco perguntas que ouço quase toda semana no consultório: o que são as extrassístoles, o que as causa, quando se preocupar, como fazemos o diagnóstico e quais são as opções de tratamento.

O Que São as Extrassístoles?

Sístole é o nome que damos ao batimento do coração. Extrassístole, portanto, é simplesmente um batimento a mais.

Extrassístoles são contrações cardíacas extras, batidas prematuras que ocorrem antes do batimento normal. Pense no ritmo do coração como uma sequência de batidas com um espaço parecido entre elas. Quando surge uma batida extra, esse espaço fica mais curto, o batimento chega adiantado, e logo depois costuma vir uma pausa. 

As arritmias, como as extrassístoles, vêm de alterações na parte elétrica do coração. Não é raro eu ver um paciente que não sente absolutamente nada e descobre extrassístoles só porque fez um exame por outro motivo.

Elas podem ser sentidas de várias formas: como uma pausa seguida de uma batida mais forte, como a impressão de que o coração parou por um instante, ou apenas como uma palpitação diferente, às vezes sentida no pescoço. Na maioria dos casos, são benignas e aparecem inclusive em corações totalmente saudáveis. Ainda assim, podem causar desconforto, ansiedade e medo, e em algumas situações estão associadas a problemas cardíacos.

O Que Pode Causar as Extrassístoles?

A presença e a quantidade de extrassístoles podem ser influenciadas por vários fatores. Os mais comuns são:

  • Estresse emocional, ansiedade e depressão
  • Consumo excessivo de cafeína e de bebidas energéticas
  • Consumo excessivo de bebidas alcoólicas
  • Gastrite e problemas intestinais
  • Tabagismo
  • Desequilíbrios de sódio, potássio, cálcio e magnésio no sangue
  • Desidratação
  • Comer em excesso ou refeições muito pesadas
  • Infecções
  • Problemas na tireoide e nos rins
  • Doenças cardíacas
  • Efeito de algumas medicações
  • Privação de sono e apneia do sono

Muitas vezes o próprio paciente já chega com o gatilho identificado. Ele me diz: “Mozar, toda vez que eu durmo muito mal, acordo com essas batidas.” Ou então: “Toda vez que eu saio, bebo demais e passo mal no dia seguinte.” Quando conseguimos achar o desencadeante e retirá-lo da rotina, seja tratando o estresse, dormindo melhor ou cortando o álcool, a queixa costuma melhorar bastante.

Mas atenção. Muitas vezes não há um gatilho claro, e o paciente não tem nada evidente que provoque as extrassístoles. Nesses casos, precisamos investigar com mais cuidado.

Quando Você Deve se Preocupar?

Embora as extrassístoles geralmente não sejam graves, em alguns casos elas pedem tratamento mais específico e acompanhamento cardiológico mais de perto. Para separar o que é tranquilo do que merece atenção, eu olho basicamente quatro coisas.

A primeira é se existe alguma alteração estrutural no coração. Para isso podemos usar exames como o ecocardiograma, a tomografia das coronárias e a ressonância magnética.

A segunda são os sintomas associados. Aqui eu quero saber se o paciente teve desmaio, dor no peito, mal-estar importante, tontura, queda de pressão, se não consegue se exercitar direito porque fica sentindo as batidas, ou se acorda de madrugada e não consegue dormir. Sintomas que limitam o dia a dia mudam a conversa.

A terceira é a quantidade de extrassístoles, que vemos no Holter. Cada pessoa tem, em média, entre 80 e 100 mil batimentos por dia. Um paciente com 100 mil batimentos que apresente 2% de extrassístoles, uma quantidade que não consideramos alta, teria cerca de 2 mil batidas extras no dia. E aqui vem algo importante: tem paciente que se incomoda muito com isso e perde qualidade de vida, e tem paciente que nem percebe. A quantidade que você sente não mede a gravidade. Eu tenho pacientes com muitas extrassístoles que não sentem nada, e pacientes com pouquíssimas que já sentem muito.

A quarta coisa que avalio é o tipo de extrassístole: se é ventricular ou supraventricular, se vem em pares, se forma padrões como bigeminismo ou trigeminismo, e como ela se comporta no esforço físico. Tudo isso ajuda a entender o risco de cada caso.

Como o Diagnóstico das Extrassístoles é Feito?

O principal exame é o Holter de 24 horas. É aquele em que colamos eletrodos no tórax, você vai para casa e o aparelho monitora batimento a batimento ao longo do dia inteiro. Ele mostra quantas extrassístoles você tem e de que tipo.

Além dele, uso outros exames que se completam:

  • Eletrocardiograma, aquela “fitinha” rápida feita no consultório
  • Ecocardiograma, o ultrassom do coração, para ver dilatações ou outras alterações
  • Teste ergométrico, o teste de esteira, para observar se as extrassístoles aumentam, diminuem ou geram arritmias durante o esforço
  • Exames de pesquisa de isquemia, já que a falta de sangue no coração, aguda ou por uma cicatriz antiga de infarto, pode gerar extrassístoles
  • Ressonância magnética do coração, que revela cicatrizes e áreas de fibrose

A ressonância é um exame que uso muito para separar o joio do trigo. Ela mostra regiões do músculo cardíaco que podem favorecer arritmias. Vimos isso, por exemplo, em pacientes que tiveram covid grave com inflamação do músculo do coração, a miocardite, e ficaram com áreas de fibrose mais propensas a gerar arritmias.

Existe ainda o estudo eletrofisiológico. O nome é feio, mas a ideia é simples: é um procedimento parecido com o cateterismo, feito na mesma sala, porém com materiais diferentes. Nele, olhamos por dentro do coração exatamente onde a arritmia nasce. E, além de diagnosticar, podemos tratar ali mesmo.

Quais São as Opções de Tratamento?

Vou começar pela melhor notícia: se você está lendo isto, já pode começar a cuidar das suas extrassístoles hoje, ajustando o estilo de vida. Esse é o primeiro pilar do tratamento e faz mais diferença do que muita gente imagina.

Na prática, isso significa:

  • Parar de beber bebida alcoólica
  • Parar de fumar ou usar qualquer tipo de droga
  • Cuidar da saúde mental, com apoio de um especialista quando necessário
  • Dormir bem, idealmente de 7 a 9 horas por noite
  • Investigar problemas do sono, como ronco excessivo e apneia
  • Praticar atividade física regularmente
  • Cuidar da composição corporal, principalmente reduzindo a gordura abdominal

Sobre a cafeína, vale um número: acima de 400 mg por dia já é uma quantidade grande. Se o paciente toma muito café, precisamos reduzir. E se você é daquelas pessoas que sente as batidas com pouco café, o caminho é simples: corte o café.

Não existe querer cuidar de arritmia e continuar bebendo demais e tomando cafeína em excesso.

O segundo pilar é tratar as doenças associadas. Uma pressão alta mal controlada facilita as extrassístoles. O mesmo vale para apneia do sono, problemas renais, doenças das artérias ou das válvulas do coração, diabetes mal controlada e alterações da tireoide. Investigar tudo isso faz parte do cuidado.

O terceiro pilar são as medicações específicas. Para muitos pacientes, tentamos primeiro a mudança de estilo de vida antes de entrar com remédio. Para outros, principalmente quando há muitos sintomas ou extrassístoles mais graves, a medicação entra para melhorar a qualidade de vida ou proteger o coração. As classes que mais usamos são os betabloqueadores e os bloqueadores dos canais de cálcio, que reduzem um pouco a frequência cardíaca, além dos antiarrítmicos, como a amiodarona, e do magnésio, que ajuda no controle. Quando existe uma cardiopatia por trás, tratar essa doença também melhora as extrassístoles. Cada paciente responde de um jeito, e ajustar isso é parte da ciência do dia a dia.

O último recurso é a ablação, realizada durante o estudo eletrofisiológico. Nela, localizamos o ponto exato da arritmia e o “queimamos”, entre aspas. Na grande maioria dos casos bem indicados, o paciente nunca mais tem aquela extrassístole. É um tratamento invasivo, complexo, que exige um especialista, e quando bem indicado resolve e muda a vida do paciente.

4 Perguntas Frequentes:

  1. Sentir muitas extrassístoles significa que meu coração está fraco? Não necessariamente. A intensidade do que você sente não corresponde à gravidade. Há quem tenha muitas e não sinta nada, e quem tenha poucas e sinta demais.
  2. Extrassístole vira infarto ou parada cardíaca? Na maioria das vezes, não. Elas costumam ser benignas e aparecem até em corações saudáveis. O que muda o risco é a presença de uma doença estrutural por trás, e é justamente isso que investigamos.
  3. Preciso cortar o café para sempre? Depende. Acima de 400 mg por dia é muito. Se o café for um gatilho claro para você, o ajuste é reduzir ou suspender.
  4. Se eu não sinto nada, preciso tratar? Depende da quantidade, do tipo e de haver ou não uma doença associada. Por isso mesmo alguém sem sintomas pode descobrir extrassístoles em um Holter e merecer acompanhamento.

Recapitulando os Pontos-Chave

  • Extrassístoles são batidas extras do coração, que chegam adiantadas e nascem da parte elétrica do coração
  • São muito comuns, inclusive em pessoas sem nenhuma doença cardíaca
  • A quantidade que você sente não mede a gravidade do problema
  • Gatilhos frequentes incluem café em excesso, álcool, noites mal dormidas, apneia, estresse e alterações da tireoide
  • Sinais que pedem atenção: desmaio, dor no peito, tontura, queda de pressão e limitação para se exercitar
  • O exame principal para o diagnóstico é o Holter de 24 horas
  • O tratamento começa pelo estilo de vida e, quando necessário, envolve medicação ou ablação

Na maioria das vezes, a extrassístole é o seu coração avisando que algo na rotina pode melhorar: o sono, o café, o álcool, o peso, o estresse. Se essas batidas estão atrapalhando o seu dia ou vêm acompanhadas de sintomas como desmaio, dor no peito ou tontura, não fique só na dúvida. Procure um cardiologista, faça os exames certos e entenda o seu caso com calma.

Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica individualizada. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure seu médico.

Editor Chefe: Dr. Mozar Suzigan de Almeida, Médico Clínico Geral e Cardiologista, CRM 161706

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