No dia 17 de maio de 2026, a Organização Mundial da Saúde declarou emergência de saúde pública de importância internacional por causa de um surto de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda. É uma das mais altas classificações de alerta que a OMS pode emitir, a mesma usada durante a pandemia de COVID-19. Isso não significa que o mundo está à beira de uma pandemia de Ebola. Significa que o evento exige coordenação global e atenção redobrada. Vamos entender tudo com calma.
O que é o Ebola e por que ele assusta tanto?
O Ebola é uma doença causada por um vírus da família Filoviridae. Descoberto em 1976, próximo ao Rio Ebola no Congo, o vírus pode causar febre hemorrágica grave, com taxa de letalidade que varia muito dependendo da cepa, mas que pode chegar a 90% em alguns surtos, segundo o Ministério da Saúde do Brasil.
Existem cinco subtipos conhecidos. O mais letal é o Zaire Ebolavirus. O surto atual, no entanto, é causado pelo Bundibugyo Ebolavirus, uma cepa diferente, identificada pela primeira vez em 2007 em Uganda. Isso tem uma implicação importante: não existem vacinas nem tratamentos aprovados especificamente para o vírus Bundibugyo. Para as cepas do tipo Zaire, já há vacinas disponíveis que foram usadas em surtos anteriores no Congo. Para este surto, a humanidade está correndo para desenvolver contramedidas do zero.
O que está acontecendo agora, em números
De acordo com o comunicado oficial da OMS de 17 de maio de 2026, até o dia 16 de maio foram confirmados oito casos laboratoriais e 246 casos suspeitos na Província de Ituri, no Congo, além de 80 mortes suspeitas. Em Uganda, dois casos confirmados foram registrados em Kampala em pessoas que viajaram do Congo. Ambos estavam em unidades de terapia intensiva.
O que preocupa os especialistas não é só o número de casos confirmados, mas a taxa de positividade dos testes iniciais: oito positivos em 13 amostras coletadas em regiões diferentes. Isso sugere que o surto pode ser maior do que o que está sendo detectado, especialmente numa região com muita mobilidade populacional, conflito armado e sistemas de saúde fragilizados.
Como o Ebola se transmite? Esclareço aqui os principais mitos
Hoje quero desmistificar algumas ideias erradas que circulam toda vez que o nome Ebola aparece nas notícias.
O primeiro mito é que o Ebola se transmite pelo ar. Isso é falso. O vírus não é transmitido por via aérea. A infecção ocorre pelo contato direto com sangue, secreções, fluidos corporais ou tecidos de pessoas infectadas, seja quando elas estão vivas com sintomas ativos, seja depois da morte. É por isso que os surtos se concentram em ambientes hospitalares com falha nos equipamentos de proteção e em rituais funerários onde há contato com o corpo.
O segundo mito é que qualquer pessoa que viajou à África está em risco. Não é assim. O risco é específico para quem esteve em áreas com transmissão ativa, especialmente a Província de Ituri no Congo ou Kampala, Uganda, nas últimas três semanas.
O terceiro mito é que não há o que fazer porque não tem vacina. Para as cepas Zaire, há vacinas eficazes. Para o Bundibugyo, ainda não, mas há ensaios clínicos em andamento com candidatos promissores, conforme informado pela própria OMS no comunicado desta semana.
Os sintomas que você precisa conhecer
O período de incubação vai de 2 a 21 dias. Os sintomas iniciais, segundo o Ministério da Saúde, incluem febre, dor de cabeça intensa, fraqueza, diarreia, vômitos, dor abdominal e perda de apetite. Com a evolução da doença, podem surgir manifestações hemorrágicas, como sangramentos internos e externos. A gravidade aumenta rapidamente na segunda semana.
Uma informação fundamental: a pessoa só transmite o vírus depois que os sintomas aparecem. Durante o período de incubação, ela não é contagiosa.
O Brasil corre algum risco?
Quero ser direto com vocês. O risco para a população brasileira em geral é muito baixo. Não há casos no Brasil, e o Ministério da Saúde informa que não há registro histórico de Ebola em território nacional.
A OMS deixou claro no comunicado desta semana que não recomenda triagem de entrada em países que não fazem fronteira com o Congo ou Uganda. O Brasil não faz fronteira com nenhum dos dois. Fechar fronteiras, aliás, é uma medida que a OMS desencoraja ativamente, pois empurra o tráfego para rotas não monitoradas e dificulta a resposta de saúde pública.
Se você vai viajar ou tem familiar que viaja para a região afetada da África Central, a orientação é clara: evite a Província de Ituri e Kampala enquanto o surto não for controlado, e procure orientação médica antes de qualquer viagem a áreas de risco.
O que fazer se você tiver sintomas após viajar para área afetada
Isso é para uma minoria de pessoas, mas é importante dizer: se você retornou nos últimos 21 dias de área com transmissão ativa de Ebola e desenvolver febre, procure atendimento médico imediatamente e informe o histórico de viagem. Não vá direto a uma UPA ou pronto-socorro sem avisar antes. Ligue para o serviço de saúde e descreva a situação. O Ebola é de notificação compulsória imediata no Brasil.
Uma reflexão que eu faço sempre nesses momentos
Toda vez que um surto de doença viral ganha atenção internacional, vejo dois comportamentos opostos: de um lado, o pânico exagerado; de outro, o descaso completo. Nenhum dos dois ajuda.
O que eu defendo, e eu posso afirmar isso com base em anos de experiência clínica, é o equilíbrio informado. Entender o que é sério, o que é factual e o que é alarmismo sem fundamento. O Ebola é uma doença gravíssima para as populações diretamente afetadas no Congo e em Uganda. Para nós no Brasil, é um evento que exige atenção e monitoramento, mas não justifica mudança de comportamento no dia a dia da maioria das pessoas.
A vigilância epidemiológica brasileira está funcionando. O Ministério da Saúde acompanha o surto. E vocês, lendo este post, já estão à frente de 90% das pessoas no Brasil em termos de informação qualificada sobre o tema.
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