Nesta semana, a farmacêutica Eli Lilly divulgou os resultados do estudo de Fase 3 TRIUMPH-1, avaliando um novo medicamento chamado retatrutida. Os números que vieram desse estudo são, sem exagero, os mais impressionantes já registrados em um ensaio clínico para obesidade na história da medicina.
Hoje quero compartilhar com vocês o que esses dados significam de verdade, do ponto de vista científico e do ponto de vista do coração.
O que é a retatrutida e por que ela é diferente de tudo que veio antes
Para entender a retatrutida, preciso primeiro contextualizar onde estamos. Nos últimos anos, vivemos uma revolução no tratamento da obesidade. Os agonistas de GLP-1, como a semaglutida, e os agonistas duplos GIP/GLP-1, como a tirzepatida, abriram caminho para tratamentos medicamentosos com eficácia real e mensurável.
A retatrutida vai um passo além. Ela é o que os cientistas chamam de agonista triplo: uma única molécula que ativa simultaneamente três receptores hormonais, o GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose), o GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) e o glucagon.
Pense assim: se os medicamentos anteriores eram carros com dois motores trabalhando em sinergia, a retatrutida coloca três motores nessa equação metabólica. O resultado é uma potência de ação sobre o peso, o metabolismo e os marcadores cardiovasculares que, eu posso afirmar, nunca havíamos visto antes em um comprimido ou injeção.
Os números do estudo TRIUMPH-1 que mudaram o debate científico
O TRIUMPH-1 foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, envolvendo 2.339 participantes adultos com obesidade ou sobrepeso associado a pelo menos uma complicação metabólica, sem diabetes tipo 2. O medicamento foi aplicado em injeção semanal em três doses: 4 mg, 9 mg e 12 mg.
Os resultados divulgados em 21 de maio de 2026 são os seguintes:
- Dose de 4 mg: perda média de 47,2 libras (19,0% do peso corporal) em 80 semanas
- Dose de 9 mg: perda média de 64,4 libras (25,9% do peso corporal) em 80 semanas
- Dose de 12 mg: perda média de 70,3 libras (28,3% do peso corporal) em 80 semanas
Na extensão do estudo, pacientes com IMC igual ou superior a 35 que continuaram o tratamento por 104 semanas atingiram perda média de 85 libras, equivalente a 30,3% do peso corporal.
Para quem não tem familiaridade com esses números: uma perda de 30% do peso corporal era, até poucos anos atrás, exclusividade da cirurgia bariátrica.
Estamos falando de um medicamento injetável semanal que alcança resultados comparáveis aos do bypass gástrico.
E não é só isso. Nesse mesmo grupo com a dose mais alta, 45,3% dos participantes atingiram perda igual ou superior a 30% do peso, e 65,3% chegaram a um IMC abaixo de 30 ao final de 80 semanas.
Por que um cardiologista deveria se importar com isso?
Aqui está o ponto que mais me interessa como cardiologista. A retatrutida não apenas emagreceu os pacientes do estudo. Ela melhorou uma série de marcadores que eu monitoro no consultório todos os dias.
No grupo que usou a dose de 12 mg, houve uma redução média de 24,1 centímetros na circunferência abdominal. Isso importa muito porque a gordura visceral, aquela que fica ao redor dos órgãos internos, é um dos maiores preditores independentes de infarto e morte cardiovascular que conhecemos.
Além disso, os pesquisadores documentaram melhoras significativas em:
- Colesterol não-HDL (o que chamamos de colesterol ruim, na prática)
- Triglicerídeos
- Pressão arterial sistólica
- Proteína C-reativa de alta sensibilidade (hsCRP), que é um marcador de inflamação vascular
Traduzindo para o cotidiano: a retatrutida parece agir no coração não apenas indiretamente, pelo emagrecimento, mas também de forma direta sobre a inflamação e o perfil de colesterol. Isso é exatamente o tipo de dado que nos faz sonhar com um medicamento que reduza infartos.
Os estudos TRIUMPH-2 (em pacientes com diabetes tipo 2) e TRIUMPH-3 (em pacientes com doença cardiovascular estabelecida) estão em andamento e devem divulgar resultados ainda em 2026. Estou acompanhando de perto.
A retatrutida já está disponível para prescrição?
Não. E este é um ponto fundamental que preciso deixar absolutamente claro.
A retatrutida é, até esta data, um medicamento investigacional. Ela ainda não foi aprovada pela FDA nos Estados Unidos, nem pela Anvisa no Brasil. Portanto, não existe retatrutida disponível em farmácias, não pode ser prescrita clinicamente e, importantíssimo, não pode ser manipulada em farmácias de manipulação.
A Eli Lilly informou que pretende submeter o pedido de aprovação regulatória ainda em 2026, com base no conjunto completo de dados do programa TRIUMPH. Os analistas do setor projetam uma possível aprovação para 2027.
Se você encontrar alguém oferecendo retatrutida manipulada ou importada, fuja. Qualquer versão não aprovada desse composto não passou por avaliação de segurança e controle de qualidade.
Perguntas comuns:
–A retatrutida substitui a cirurgia bariátrica?
Ainda não há como responder isso com certeza. O que podemos dizer é que, em termos de magnitude de perda de peso, os resultados do TRIUMPH-1 se aproximam dos dados históricos da cirurgia bariátrica. Mas a cirurgia envolve também modificações anatômicas com efeitos metabólicos distintos. As duas abordagens provavelmente continuarão complementares, cada uma indicada para perfis clínicos específicos. Essa é uma conversa que deve acontecer entre você e seu médico, avaliando seu caso individualmente.
–A retatrutida vai substituir a semaglutida e a tirzepatida?
Não necessariamente substituir, mas ampliar o arsenal terapêutico disponível. A tirzepatida ainda não existia quando os primeiros dados de semaglutida foram publicados, e as duas coexistem hoje com indicações sobrepostas mas não idênticas. O mesmo deverá acontecer com a retatrutida. Pacientes que respondem bem às opções atuais provavelmente não precisarão migrar. Para aqueles com resposta insuficiente, a retatrutida pode ser a escolha.
–Quais são os efeitos colaterais?
Os efeitos mais comuns observados nos ensaios foram gastrointestinais: náusea, vômitos, diarreia e constipação. Esses eventos tendem a ser mais frequentes nas primeiras semanas de uso e durante o escalonamento de dose. O interessante é que, na dose de 4 mg, a taxa de descontinuação por efeitos adversos foi menor do que no grupo placebo, o que sugere boa tolerabilidade nessa faixa posológica. Efeitos de longo prazo em populações mais amplas ainda estão sendo estudados.
O que um estudo como o TRIUMPH-1 nos diz sobre o futuro da medicina
Por muito tempo, a obesidade foi tratada como fraqueza de caráter, como falta de força de vontade. A ciência desfez esse mito de forma definitiva. A obesidade é uma doença crônica, de base neurometabólica, com componentes genéticos, hormonais e ambientais. Tratar essa doença com eficácia nunca foi uma questão moral, sempre foi uma questão de termos as ferramentas certas.
A retatrutida representa a melhor ferramenta que a farmacologia já nos entregou nesse campo. Mas, como toda ferramenta poderosa, ela exige uso responsável, indicação criteriosa, acompanhamento médico rigoroso e integração com mudanças de estilo de vida. Medicamento não é atalho. É suporte.
Como eu posso te ajudar hoje, enquanto aguardamos a aprovação
Se você convive com obesidade, síndrome metabólica, diabetes tipo 2 ou doença cardiovascular, a notícia da retatrutida é promissora, mas o amanhã não substitui o hoje. Existem ferramentas aprovadas e eficazes disponíveis agora, e o tratamento correto começa com uma avaliação individualizada.
No meu consultório, eu avalio o risco cardiovascular global de cada paciente, analiso os marcadores metabólicos com profundidade e, quando indicado, construo um plano terapêutico que pode incluir os medicamentos disponíveis atualmente, junto com orientações de estilo de vida que fazem diferença real no longo prazo.
Não espere o próximo medicamento para começar a cuidar do seu coração.
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Fontes: https://www.lilly.com/news/stories/what-to-know-about-retatrutide, https://investor.lilly.com/news-releases/news-release-details/lillys-triple-agonist-retatrutide-delivered-powerful-weight-loss, https://www.medscape.com/viewarticle/retatrutide-delivers-unprecedented-weight-loss-phase-3-2026a1000gl4
