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Torcer pela Seleção Pode Matar? O Que Acontece com o Seu Coração na Copa do Mundo

Torcer pela Seleção Pode Matar? O Que Acontece com o Seu Coração na Copa do Mundo

Brasil na final. Pênalti marcado contra a gente. Você sente o coração disparar, a boca seca, o suor nas mãos, o peito apertando. Você acha que é emoção. E é. Mas tem gente que sente exatamente isso e não é só emoção. É um infarto ou uma arritmia começando.

Eu vou te contar o que acontece com o seu coração na Copa do Mundo, porque a coisa é mais séria do que parece. Só para você ter uma ideia, a minha própria frequência cardíaca dispara quando eu assisto a um jogo emocionante, mesmo parado, sentado, só acompanhando um jogo de tênis.

Um estudo acompanhou mais de quatro mil pacientes durante a Copa do Mundo na Alemanha, em 2006. Nos dias em que a seleção jogava, os infartos, arritmias e paradas cardíacas foram quase três vezes maiores do que nos dias sem jogo. Três vezes. Só de torcer e assistir ao futebol. E se isso aconteceu na Alemanha, imagine no Brasil, onde a gente torce com o coração para tudo.

Neste texto você vai entender por que torcer pode ser bom e perigoso ao mesmo tempo, o que acontece com as suas artérias durante o jogo, o que torna o dia de jogo um dia de maior risco, como se proteger e quem precisa ficar mais atento.

O Que Acontece com o Seu Coração Durante o Jogo?

Imagine a cena. Brasil na final, empate no segundo tempo. Você está no bar, bebendo cerveja, de pé, suado, agitado, gritando a cada lance. Nesse momento o seu coração está acelerado, com adrenalina e cortisol no sangue, sob efeito do álcool, comendo coisas cheias de gordura, açúcar e sal, com a pressão subindo. O seu corpo está passando por uma grande sobrecarga. E eu não estou exagerando.

Um estudo publicado no jornal canadense de cardiologia mostrou que a frequência cardíaca de quem assiste a um jogo de hóquei ao vivo aumentou 110 por cento. E quando a pessoa assistia pela televisão, ainda assim o coração disparava 75 por cento. No geral, a frequência cardíaca subiu 92 por cento durante a partida, saindo de 60 batimentos por minuto em repouso para 114.

Por que isso acontece? A emoção intensa dispara uma cascata de hormônios do estresse, a adrenalina, a noradrenalina e o cortisol. Esses hormônios aceleram o coração, aumentam a pressão arterial e contraem as artérias do corpo, incluindo as do coração. Agora imagine que você tem uma placa de gordura formada há anos nas suas artérias. Sob todo esse estresse, com a pressão mais alta e o coração acelerado, essa placa pode sofrer ruptura. 

Quando rompe, expõe o conteúdo gorduroso ao sangue. Forma-se um coágulo instantaneamente. A artéria entope. Infarto.

A Copa Realmente Aumenta o Risco de Infarto?

Tem um estudo que chamou muito a atenção dos cardiologistas. Pesquisadores monitoraram eventos cardiovasculares, como o infarto, na região de Munique durante a Copa do Mundo de 2006. Compararam os dias em que a Alemanha jogava com os mesmos períodos de 2003 e 2005, quando não havia Copa.

O resultado? Nos dias de jogo da Alemanha, o risco de ter um evento cardíaco grave era 2,66 vezes maior. Para os homens, esse risco subia para 3,26 vezes. E o pico acontecia nas primeiras duas horas do início da partida, exatamente quando a emoção está no auge.

E quem mais sofreu? As pessoas que já tinham doença do coração. Quase metade dos pacientes que tiveram eventos cardíacos nos dias de jogo já tinha doença coronariana prévia.

O mais interessante é que tanto as vitórias dramáticas quanto as derrotas causaram grandes aumentos. O que importa não é ganhar ou perder, e sim o estresse emocional. A tensão, a incerteza, a angústia, tudo isso afeta o coração.

Torcer Também Faz Bem?

Este texto não é para te fazer ficar trancado em casa enquanto o Brasil joga. Longe disso. Torcer tem benefícios reais para a saúde, e a ciência comprova.

Socializar, reunir amigos, compartilhar emoções, tudo isso fortalece a conexão social, que é um fator protetor cardiovascular comprovado. Estudos mostram que pessoas socialmente conectadas têm menos risco de doença coronariana e menos risco de AVC.

A alegria genuína e as emoções positivas também protegem o coração. Pessoas com maior afeto positivo apresentam 22 por cento menos risco de doença coronariana. A felicidade está associada a melhor sono, mais exercício, melhor alimentação e menor mortalidade em pacientes com diabetes. As emoções positivas reduzem a inflamação, melhoram a variabilidade da frequência cardíaca, aumentam o tônus vagal e diminuem a rigidez das artérias.

O isolamento social faz o contrário. Aumenta o risco de infarto e de AVC. A solidão faz mal ao coração, e isso é dado científico. Então o problema não é torcer. O problema é torcer sem cuidado, sem saber o que te coloca em risco.

O Que é a Síndrome do Coração de Festa?

Aqui tem uma coisa que pouca gente sabe. Existe uma condição que os cardiologistas conhecem como Holiday Heart Syndrome, que eu traduzo para você como Síndrome do Coração de Festa. Ela foi descrita oficialmente em 1978, quando um cardiologista americano percebeu que todo fim de semana longo, todo feriado com bebida, os prontos-socorros enchiam de pacientes com arritmia.

O gatilho é o álcool em excesso. Quando você bebe demais, o álcool altera a condução elétrica do coração e muda o ritmo. A câmara superior do coração começa a bater de forma caótica, rápida e descoordenada. Isso é a fibrilação atrial. E beber muito em uma única ocasião já é suficiente para desencadear essa síndrome, mesmo em pessoas que nunca tiveram problema cardíaco antes.

Os dados sobre o álcool e a arritmia são claros. Estudos recentes, com sensores contínuos de álcool, mostraram que o consumo dobra o risco de um episódio de fibrilação atrial nas quatro horas seguintes, e o consumo de duas ou mais doses aumenta esse risco em mais de três vezes. Uma única dose já pode ser suficiente para desencadear um episódio em quem tem fibrilação atrial paroxística conhecida. A relação entre o álcool e a arritmia é dose-dependente e linear, sem um limite seguro claro. E em ensaios clínicos, parar de beber reduziu de forma significativa a carga de fibrilação atrial em quem consumia álcool regularmente.

Agora junte tudo no dia de jogo: estresse emocional intenso, que já aumenta o risco cardíaco, mais álcool, que dispara arritmias, mais comida gordurosa e salgada, que sobrecarrega o coração, mais privação de sono se o jogo é à noite, que eleva o cortisol, e ainda o sedentarismo, porque você fica sentado o tempo todo vibrando. Esse coquetel todo acontece ao mesmo tempo, no mesmo dia, no mesmo jogo.

E o que mais me preocupa é que a maioria dessas pessoas saiu de casa com saúde, feliz, para torcer pelo seu time. Ninguém estava esperando terminar a noite no hospital.

Quem Precisa de Cuidado Redobrado?

Existe um perfil de pessoa que precisa prestar muito mais atenção nessas informações. Você está no grupo de maior risco se tem pressão alta, mesmo controlada com medicamento, se tem diabetes, se tem colesterol alto, se já teve algum evento cardíaco antes, como infarto, angina ou arritmia diagnosticada, se tem histórico familiar de doença no coração, se fuma ou fumou por muitos anos, se está acima do peso ou se é sedentário. Também entra nesse grupo quem tem mais de 50 anos com dois ou mais desses fatores juntos.

Isso não significa que você não pode torcer. Significa que precisa torcer de um jeito diferente.

Como Torcer com Segurança?

Eu não vou te dizer para não beber nada, porque você é adulto e vai fazer a sua escolha. Mas te digo como cardiologista: limite-se a uma ou duas doses, no máximo. E beba muita água entre os intervalos. A desidratação espessa o sangue e aumenta o risco de coágulo. Nos dias de jogo, hidrate-se antes, durante e depois.

Sobre a comida, as frituras, os salgadinhos e os petiscos gordurosos devem entrar com moderação. O sódio em excesso sobe a pressão em poucas horas. Se você é hipertenso, isso pode ser o bastante para causar um problema.

E essa é para quem já tem doença cardíaca estabelecida: não abandone os seus medicamentos no dia do jogo. Esse é justamente o dia em que o seu coração mais precisa de proteção.

Quando Devo Procurar Ajuda Durante o Jogo?

Se durante a partida você sentir dor ou aperto no peito, falta de ar desproporcional, o coração batendo rápido ou irregular, tontura ou suor frio, pare. Saia do ambiente, sente-se, respire. E se não melhorar em dois ou três minutos, chame o SAMU pelo 192 ou vá ao pronto-socorro. Não espere o jogo terminar. Não existe placar que valha mais que a sua vida.

Recapitulando os Pontos-Chave

  • Nos dias de jogo da seleção, o risco de evento cardíaco grave chega a ser quase três vezes maior, com pico nas duas primeiras horas
  • A emoção intensa dispara adrenalina e cortisol, que aceleram o coração, sobem a pressão e podem romper uma placa de gordura
  • Torcer também protege o coração, pela conexão social e pelas emoções positivas; o problema é torcer sem cuidado
  • O álcool em excesso desencadeia a fibrilação atrial, a Síndrome do Coração de Festa, mesmo em quem nunca teve problema
  • Quem tem pressão alta, diabetes, colesterol alto, evento cardíaco prévio ou outros fatores de risco precisa de cuidado redobrado
  • Diante de dor no peito, falta de ar, palpitação, tontura ou suor frio, pare e procure ajuda imediatamente

Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica individualizada. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure seu médico.

Editor Chefe: Dr. Mozar Suzigan de Almeida, Médico Clínico Geral e Cardiologista, CRM 161706

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