Segundo a estimativa mais recente do INCA, o Instituto Nacional de Câncer, todo ano cerca de 53 mil brasileiros recebem o diagnóstico de câncer de cólon e reto, conhecido também como intestino grosso, o que faz dele o terceiro tipo mais comum no país, tanto entre homens quanto entre mulheres, mas boa parte dessas mortes poderia ser evitada.E existe esse exame capaz de encontrar essa doença bem cedo. Um grande estudo mostrou que fazer o exame reduziu em 50% o risco de morrer de câncer de intestino, e em 31% o risco de desenvolver a doença. É o exame que arranca o problema pela raiz antes de ele virar câncer.
Imagine o seu intestino grosso como um longo corredor. Na parede desse corredor, às vezes crescem pequenas saliências, os pólipos. A maioria é inofensiva, mas alguns tipos, com o tempo, podem se transformar em câncer. A colonoscopia é como percorrer esse corredor inteiro com uma câmera na ponta, olhando cada trecho da parede. E quando o médico encontra um pólipo suspeito, ele não só vê: ele remove ali mesmo. É por isso que esse exame é diferente de todos os outros. Ele não apenas encontra. Ele previne.
O que é a colonoscopia e por que ela é considerada o padrão-ouro:
A colonoscopia é um exame que avalia todo o cólon, o seu intestino grosso. O médico usa um aparelho chamado colonoscópio, um tubo flexível com lentes, uma pequena câmera e uma luz na ponta. O aparelho varre o interior do intestino e transmite as imagens para uma tela.
Durante o exame, dá para checar o intestino em busca de pólipos, pontos de sangramento, inflamações como a colite e outros problemas do trato gastrointestinal. Até hoje, a colonoscopia periódica é considerada o melhor método para rastrear pólipos e câncer em fase inicial. Ela consegue detectar tumores enquanto ainda são curáveis e identificar pólipos pré-cancerosos, que podem ser removidos antes de virarem câncer. Por isso o nome de padrão-ouro do rastreamento.
Se o médico vê uma área suspeita, ele pode colher uma biópsia, uma pequena amostra de tecido, com um acessório na ponta do colonoscópio. Se encontra um pólipo, pode usar uma alça metálica e remover o pólipo inteiro, que segue para análise no laboratório. Tudo isso no mesmo exame.
Quem precisa fazer a colonoscopia e a partir de que idade:
Para pessoas com risco médio, o rastreamento com colonoscopia deve começar aos 45 anos. Se o exame vem limpo, sem pólipos, ele costuma ser repetido a cada 10 anos, até os 75 anos.
Mas atenção! Algumas pessoas precisam começar mais cedo ou repetir com mais frequência. São elas:
- Quem tem histórico familiar de câncer colorretal, especialmente histórico forte na família. Por exemplo, se um familiar de primeiro grau teve câncer com 45 anos você deveria fazer o exame 10 anos antes, aos 35 anos, se foi com 40 anos, você deve fazer com 30 anos, e assim por diante.
- Quem tem doença inflamatória intestinal crônica, como doença de Crohn ou retocolite ulcerativa.
- Quem tem certas síndromes hereditárias, como a polipose adenomatosa familiar.
- Quem já teve um pólipo pré-canceroso ou um tumor removido do intestino. Para essas pessoas, a repetição em intervalos mais curtos é recomendada.
Além disso, o exame pode ser indicado antes da idade de rastreamento diante de sinais que não dá para ignorar: sangue nas fezes, anemia sem explicação ou mudança no hábito intestinal. Ele também é usado para investigar a origem de um sangramento retal ou confirmar áreas de colite em quem tem sintomas. Apesar de todas as evidências a favor e do baixo risco do procedimento, só dois terços dos adultos elegíveis fazem o exame. Muita gente que deveria estar protegida simplesmente adia. E eu vejo isso no consultório o tempo todo, gente que deixa o preventivo para depois porque tem medo do preparo. Já vou falar do preparo, e você vai ver que hoje ele é mais tranquilo do que antes.
Como o exame é feito, passo a passo:
Você coloca um avental hospitalar e a equipe registra seus sinais vitais: temperatura, pulso e pressão. Pode ser colocado um oxímetro no dedo para medir a oxigenação do sangue e adesivos de eletrocardiograma no peito, para acompanhar os batimentos do coração durante o exame. Como cardiologista, eu gosto desse cuidado, porque monitorar o coração durante um procedimento com sedação é exatamente o certo a se fazer.
Você deita de lado, e pode ser pedido que encolha um ou os dois joelhos em direção ao peito. Recebe então uma medicação que seda de forma leve. Muita gente nem se lembra do exame depois. Em alguns casos, a sedação é mais profunda e a pessoa dorme.
O médico insere o colonoscópio lubrificado pelo reto e o conduz pelo intestino bombeando um pouco de ar para abrir a passagem e enxergar melhor. Se você estiver acordado, pode ter a sensação parecida com vontade de evacuar e sentir a pressão do ar. E claro, por favor, saiba que é normal e liberado eliminar esse ar durante o procedimento. O exame costuma durar de cerca de 30 minutos.
Depois, você vai para a sala de recuperação para observação. Quando a pressão, o pulso e a respiração estão estáveis e você está alerta, recebe alta. Como a medicação deixa a pessoa sonolenta, um ponto é inegociável: combine com alguém de confiança para te levar para casa. Você não deve dirigir depois do exame.
O preparo: a parte mais chata, mas a mais importante de todas:
Quem tem receio da colonoscopia quase nunca tem medo do exame em si. Tem medo do preparo. E o preparo é mesmo a parte mais desagradável do processo. Só que ele é absolutamente crucial, porque um intestino limpo é o que permite ao médico enxergar e remover os pólipos. Pólipos que ficam achatados contra a parede são especialmente difíceis de ver se sobrar fezes ou líquido cobrindo o intestino.
E aqui vai o recado que evita repetição: se o preparo for inadequado, o exame não fica bom e você pode ter que repetir tudo, preparo e colonoscopia. Não vale a economia de esforço.
O preparo costuma ser feito em um ou dois dias antes do exame, e às vezes no mesmo dia. A ideia é limpar o intestino de fezes e restos de comida. Uma sequência comum é assim:
- Alguns dias antes: dieta pobre em fibras. Esses alimentos são mais fáceis de digerir e passam mais rápido pelo intestino, o que facilita a limpeza. Entram alimentos como proteína animal (ovos, queijo, peixe, aves), alguns vegetais cozidos (cenoura, vagem, batata, abóbora, abobrinha) e frutas com pouca fibra (banana, pêssego, pera). Ficam de fora leguminosas (feijão, lentilha, ervilha), grãos integrais, castanhas, sementes, frutas secas e frutas ou vegetais crus ricos em fibra, como aspargo, brócolis, couve-flor, repolho e aipo.
- No dia anterior: apenas líquidos claros. Caldo ou consomê transparente, café preto, chá puro, sucos claros (maçã, uva branca), refrigerantes ou isotônicos claros, gelatina e picolé. No fim da tarde, começa o laxante e você bebe bastante líquido.
- Evite alimentos e bebidas vermelhos, azuis ou roxos. Assim como mancham a língua, eles podem tingir a parede do intestino e atrapalhar o exame. Nada de gelatina ou picolé de uva, framboesa ou cereja. Prefira sabores claros, como banana.
- No dia do exame: nada de comer ou beber, por causa da sedação. A exceção é quando o próprio médico orienta manter algum remédio de uso contínuo, como os de pressão alta, com um gole de água. Sempre siga a orientação do seu médico nesse ponto.
Um conceito importante do preparo moderno é a dose dividida. Quem toma a solução em duas partes deve tomar a segunda parte de quatro a seis horas antes do exame, porque isso limpa o intestino de forma mais completa. Durante todo o preparo, beba bastante líquido. Além de limpar o intestino, isso mantém a sua hidratação e o equilíbrio dos sais do corpo.
E tem uma boa notícia. As coisas mudaram muito nos últimos anos. Existem preparos de menor volume, mais fáceis de tomar, e medicações contra náusea que ajudam quem tem dificuldade de engolir a solução. Diretrizes atualizadas em 2025 reforçaram alguns pontos que valem a pena você conhecer:
- Instruções claras. O paciente deve receber orientações por escrito e faladas. Se algo não ficou claro, ligue para o consultório antes.
- Menos volume quando dá. Pessoas de baixo risco para um preparo inadequado podem usar uma solução de 2 litros em vez de 4 litros. Para elas, o volume menor é igualmente eficaz e reduz cólica e náusea. Isso é decidido pelo médico.
- Comprimidos como opção. Quem não consegue beber a solução pode preferir a versão em comprimidos, mesmo que envolva tomar vários deles.
- Cuidado redobrado em alguns casos. Certas condições e medicações aumentam o risco de um preparo ruim: cirrose no fígado, doença de Parkinson, demência, diabetes, excesso de peso e uso de antidepressivos. Se algo disso se aplica a você, o médico ajusta o esquema.
Existem ainda situações que pedem um preparo diferente. Quem tem constipação crônica costuma ter um intestino mais longo e difícil de esvaziar, e pode precisar de um preparo de dois dias. Pessoas com doença renal ou cardíaca devem usar preparos diferenciados. E se o seu último preparo foi difícil ou não funcionou, converse com o médico, porque dá para escolher outra fórmula com mais chance de sucesso.
E depois do exame? Você pode voltar à sua alimentação normal. Mas devagar. Jogar um monte de fibra de uma vez no intestino recém-limpo pode causar gás, inchaço e desconforto. O mais sensato costuma ser retomar a dieta habitual aos poucos, ao longo do dia seguinte.
O que a colonoscopia pode encontrar:
Muita gente pensa que o exame só tem dois resultados: câncer ou nada. Não é bem assim. Vários achados podem aparecer, e conhecer cada um ajuda a não entrar em pânico à toa. Os principais são:
- Exame normal. A orientação costuma ser repetir em 10 anos, até os 75 anos.
- Hemorróidas. São aglomerados de veias perto da superfície do reto. Podem causar dor, coceira ou sangramento, mas com frequência não incomodam. Quando incomodam, costumam ser mais um aborrecimento do que um perigo, e têm tratamento.
- Doença diverticular. São pequenas bolsas na parede do intestino, onde um ponto mais fraco se projeta para fora. Cerca de metade dos adultos tem, e a maioria não sente nada. Quando dão problema, pode ser sangramento ou infecção com inflamação, a diverticulite. A perfuração é a complicação mais séria e pode exigir cirurgia.
- Pólipos. São crescimentos de tecido na parede do intestino. Existem os benignos, que não viram câncer e em geral não precisam de tratamento, e os neoplásicos, que incluem o próprio câncer e os adenomas, que são pré-cancerosos. Quanto mais adenomas e quanto maiores, maior o risco. Os pequenos costumam ser removidos durante a colonoscopia. Os maiores podem exigir cirurgia.
- Inflamação e úlceras. A parede do intestino pode ficar irritada por infecção, por medicamentos como os anti-inflamatórios, por doença inflamatória intestinal ou por câncer.
- Sangramento. Às vezes há sangue no intestino, e a origem pode ser um tumor, uma úlcera ou um emaranhado anormal de vasos. Nem sempre a fonte é identificada no exame, e outros testes podem ser necessários.
Quando saem os resultados:
Parte dos achados você já sabe na hora. Se está tudo normal e nenhuma biópsia foi feita, o médico pode te dizer na hora que o exame foi normal. Mas se um pólipo foi removido ou uma amostra do intestino foi colhida, pode levar alguns dias, ou mais, para saber o resultado da análise. E como você recebeu sedação, é comum que o resultado seja entregue por escrito e conversado depois, com você mais desperto e atento.
A colonoscopia tem riscos?
Tem, como todo procedimento. Mas complicações sérias são raras. Em cerca de uma a três colonoscopias a cada mil, ocorre uma complicação grave, como sangramento importante ou uma perfuração da parede do intestino. Também podem acontecer náusea, vômito, inchaço ou irritação do reto por causa do preparo, além de reação à sedação. Colocando na balança, o benefício de prevenir um câncer supera com folga esse risco baixo.
Que fique claro quando procurar ajuda depois do exame. Ligue para o seu médico se tiver sangramento pelo reto, se sentir fraqueza, tontura, falta de ar ou palpitação, se tiver dor na barriga com ou sem enjoo e vômito, ou se aparecer febre, calafrio, dor de cabeça forte ou dores musculares.
Mitos e dúvidas que eu ouço sobre a colonoscopia:
- Ouvi dizer que colonoscopia não salva vida. Isso veio de um estudo de 2022, feito em quatro países europeus, que gerou manchetes chamativas. Mas presta atenção nesse ponto: no próprio estudo, uma análise mostrou que quem de fato fez o exame reduziu em 31% o risco de desenvolver câncer de intestino e em 50% o risco de morrer da doença. As manchetes simplificaram. A evidência a favor da colonoscopia continua sólida.
- Só existe a colonoscopia para rastrear o intestino? Não. Existem alternativas, como a retossigmoidoscopia, que examina só a parte mais baixa do cólon e não exige um preparo tão intenso nem sedação, e os testes de fezes, como a pesquisa de sangue oculto e os que buscam marcadores de DNA do câncer. São opções válidas, mas têm limitações importantes quando comparadas à colonoscopia, que continua sendo o padrão-ouro.
- O exame dói? A ideia assusta, mas ele costuma ser bem tolerado. Com a sedação, a pessoa fica relaxada, muitas vezes não sente desconforto e nem se lembra do procedimento depois.
Prevenir câncer de intestino é uma das chances que a medicina te oferece de barrar uma doença grave antes que ela comece. Se você já tem idade de rastreamento ou tem algum dos fatores de risco que eu mencionei, não deixa para depois. Marca a sua consulta e converse sobre a colonoscopia. Cuidar do seu intestino também é cuidar da sua saúde por inteiro.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica individualizada. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure seu médico.
Editor Chefe: Dr. Mozar Suzigan de Almeida, Médico Clínico Geral e Cardiologista, CRM 161706
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Fontes: https://www.health.harvard.edu/diagnostic_tests_medical_procedures/colonoscopy-a-to-z, https://www.health.harvard.edu/healthy-aging-and-longevity/the-colonoscopy-diet, https://www.health.harvard.edu/digestive-health/how-to-prep-for-a-successful-colonoscopy, https://www.health.harvard.edu/healthy-aging-and-longevity/understanding-the-results-of-your-colonoscopy, https://www.health.harvard.edu/healthy-aging-and-longevity/do-i-still-need-a-colonoscopy, https://www.brighamandwomens.org/surgery/general-and-gastrointestinal-surgery/colorectal-and-intestines-disorders/colonoscopy, https://www.health.harvard.edu/diseases-and-conditions/how-you-can-make-colonoscopy-prep-easier,
