Você sabia que deixar de escovar os dentes pode aumentar o risco de doença cardiovascular em quase dez por cento por dia que você não passa a escova? O caso do chef Erick Jacquin, jurado do MasterChef Brasil, virou notícia justamente por isso. Depois de admitir no Flow Podcast que não tinha o hábito de escovar os dentes, ele apareceu nas redes sociais ao lado de um dentista anunciando que vai mudar essa rotina.
Família do coração, hoje quero compartilhar com vocês por que essa mudança de hábito é, antes de tudo, uma decisão de saúde, não de estética.
Mas por que um cardiologista está falando sobre isso? O que entra por ela, sem cuidado, pode chegar muito mais longe do que você imagina. Inclusive até o seu coração.
O que acontece na boca quando você não escova os dentes
Eu sei o que você está pensando: “Mas o Jacquin disse que os dentes dele continuam bonitos, sem mau hálito”. Eu posso afirmar que isso não significa ausência de problema. A formação de placa bacteriana começa em poucas horas depois da última escovação. Segundo a Harvard Medical School, a quantidade de bactérias na boca pode dobrar a cada quatro ou cinco horas quando não há higienização adequada.

Esse processo é silencioso no início. A placa vai se acumulando, se transformando em tártaro, e o organismo passa a reagir a essa colônia bacteriana com inflamação. É assim que surge a gengivite, caracterizada por gengivas vermelhas, inchadas e que sangram com facilidade. Se esse quadro não for tratado, ele evolui para periodontite, uma doença mais grave, que destrói o osso que sustenta os dentes e pode levar à perda deles.
A ligação entre a boca e o coração
O que me preocupa quando vejo alguém minimizando a escovação dos dentes como o Jacquin fez por anos e que a boca não é um órgão isolado. Ela está conectada ao resto do corpo pela circulação sanguínea, e as bactérias da gengivite inflamada conseguem entrar na corrente sanguínea.
Um estudo publicado no European Heart Journal acompanhou quase duzentos e quarenta e oito mil adultos saudáveis, com idade igual ou superior a quarenta anos, na Coreia do Sul, por um período médio de nove anos e meio. Os pesquisadores observaram que pessoas com doença periodontal ou perda de dentes apresentavam taxas mais altas de problemas cardiovasculares. Cada escovação extra por dia esteve associada a uma redução de nove por cento no risco de doença cardiovascular. E ir ao dentista para limpeza profissional pelo menos uma vez por ano esteve associado a uma redução de catorze por cento nesse mesmo risco.
Isso ocorre pois gera inflamação. Esse mecanismo não é mistério para quem estuda aterosclerose. A inflamação persistente facilita a formação e a instabilidade das placas de gordura dentro dos vasos sanguíneos, o que aumenta o risco de infarto e de derrame ao longo dos anos.
Não é só o coração:
A má higiene bucal está relacionada a um risco maior de diabetes e até de declínio cognitivo, incluindo demência. A explicação proposta pelos especialistas é a mesma: inflamação sistêmica de baixo grau, mantida ao longo de anos, desgastando órgãos que, a princípio, parecem não ter relação nenhuma com a boca.

Existe ainda um dado que sempre choca meus pacientes quando eu conto. Uma revisão de estudos conduzida por pesquisadores de Harvard, publicada na JAMA Internal Medicine, reuniu resultados de quinze ensaios clínicos randomizados com cerca de dois mil e oitocentos pacientes internados em unidades de terapia intensiva. A escovação dos dentes duas vezes ao dia esteve associada a menor mortalidade, menor tempo de internação na UTI e menor tempo de uso de ventilação mecânica. O motivo é que a escovação reduz o risco de pneumonia, a infecção mais comum adquirida dentro de uma UTI.
Pense nisso. Escovar os dentes de um paciente internado, que muitas vezes nem consegue fazer isso por conta própria, virou parte do protocolo que ajuda a salvar vidas dentro do hospital.
Mitos que ainda fazem mal
“Se meus dentes parecem bonitos e eu não tenho mau hálito, está tudo bem.” Esse é um dos mitos mais perigosos que existem. Doença periodontal pode evoluir de forma silenciosa, sem dor e sem cheiro perceptível, principalmente nos estágios iniciais. A ausência de sintoma não é sinônimo de ausência de doença.
“Fumar charuto ou cigarro não piora tanto assim a situação.” Piora, sim. O tabaco reduz o fluxo salivar, e a saliva é uma das principais defesas naturais da boca contra bactérias. Menos saliva significa acúmulo mais rápido de placa e de tártaro.
“Escovar os dentes depois de comer em um restaurante é exagero.” Não é exagero, é cuidado. O que pode ser repensado é o momento, já que escovar imediatamente após refeições muito ácidas pode, em situações específicas, não ser o ideal para o esmalte. Por isso a orientação individualizada do seu dentista é sempre o caminho mais seguro.
“Só preciso ir ao dentista quando sentir dor.” Quando a dor aparece, geralmente o problema já está em um estágio avançado. A prevenção existe exatamente para evitar chegar a esse ponto.
O que vale a pena levar deste post:
- A placa bacteriana começa a se formar poucas horas depois da última escovação
- Gengivite não tratada pode evoluir para periodontite e perda de dentes
- A inflamação da gengiva pode entrar na circulação sanguínea e contribuir para doença cardiovascular
- Estudos associam mais escovações diárias e limpezas profissionais anuais a menor risco cardiovascular
- A má higiene bucal também está relacionada a diabetes e declínio cognitivo
- Em hospitais, a escovação dos dentes reduz pneumonia e mortalidade em pacientes de UTI
- Ausência de dor ou mau hálito não significa ausência de doença bucal
Prevenção é o caminho, sempre
O caso do Jacquin virou notícia porque ele é uma figura pública, mas a história se repete silenciosamente em milhões de consultórios todos os dias. Não escovar os dentes nunca é “só estética”. É uma porta aberta para inflamação que pode chegar até o seu coração, suas artérias e seu cérebro.
A reversão começa com um hábito simples, repetido todos os dias, sem custo nenhum: escovar os dentes pelo menos duas vezes ao dia e visitar o dentista regularmente. E se você, assim como eu insisto sempre aqui no blog, está cuidando do coração, cuidar da boca precisa entrar nessa mesma lista de prioridades. Eu não posso fazer o diagnóstico bucal de ninguém, esse é o trabalho do seu dentista, mas posso afirmar com toda a evidência científica do meu lado que o seu coração agradece cada escovação.
Família do coração, conversem com seu dentista e, se notar qualquer sinal de que sua saúde cardiovascular também precisa de atenção, conte comigo.
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Fontes: Harvard Health Publishing, Harvard Medical School (health.harvard.edu), European Heart Journal, JAMA Internal Medicine
