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Endocardite. A infecção do seu Coração que vem da Boca 

Endocardite. A infecção do seu Coração que vem da Boca 

O jurado do MasterChef Erick Jacquin afirmou em entrevista que não tem o hábito de escovar os dentes, e a frase correu o Brasil.

Pense na sua boca como a porta de entrada da sua casa, e na sua gengiva saudável como uma cerca firme que segura o que está do lado de fora. Quando você deixa de escovar, essa cerca inflama, abre frestas, e as bactérias que moram na placa dos dentes encontram o caminho para dentro. E dentro do corpo existe uma estrada que chega a todos os órgãos, a corrente sanguínea. É por ela que um problema que começa na boca pode terminar no coração.

O Que Acontece na Sua Boca Quando Você Não Escova?

A placa bacteriana começa a se formar poucas horas depois da última escovação. Quando a higiene não é feita direito, a quantidade de bactérias na boca pode dobrar a cada quatro horas. No começo é um processo silencioso. A placa se acumula, endurece e vira tártaro, e o organismo passa a reagir a essa colônia de bactérias com inflamação.

É assim que surge a gengivite, aquela gengiva vermelha, inchada, que coça, dói e sangra com facilidade quando você escova. Se a gengivite não é tratada, ela evolui para a periodontite, uma doença mais grave que destrói o osso que sustenta os dentes. E aí o risco deixa de ser apenas perder o dente.

Como a Bactéria da Boca Chega ao Coração?

A boca não é um órgão isolado.

Ela está conectada ao resto do corpo pela circulação e pelas vias aéreas. Quando você mexe nos dentes, comendo, escovando ou passando fio dental, uma gengiva inflamada sangra com facilidade, e esse pequeno machucado funciona como uma porta. Por ele, as bactérias da placa entram na corrente sanguínea. Isso tem até nome, chama-se bacteremia.

Uma vez no sangue, essas bactérias disparam a resposta inflamatória de defesa do corpo. Quando isso acontece na parede das artérias, favorece a formação das placas de aterosclerose, aquele acúmulo de gordura que vai entupindo os vasos. Estudos já encontraram bactérias de origem bucal dentro de placas na carótida. A presença dessas bactérias no meio da gordura pode ativar as plaquetas, que são as células que formam coágulo, e aumentar o risco de trombose.

A doença periodontal também mantém o corpo num estado de inflamação crônica de baixo grau. Um dos marcadores desse estado é a proteína C reativa ultrassensível, o PCR, que talvez você já tenha visto em algum exame de sangue. Quanto mais alto o PCR, maior o risco de eventos cardíacos, incluindo o infarto. Vários hábitos elevam esse marcador, como fumar, beber em excesso, comer mal, dormir pouco, não fazer atividade física, carregar sobrepeso e viver sob muito estresse. A doença periodontal é mais um item dessa lista.

Deixa eu te contar um caso. Um paciente que eu acompanhava havia anos chegou ao consultório com cansaço, falta de ar e os pés inchados, um quadro de insuficiência cardíaca. Investigando, descobri que ele não ia ao dentista havia muito tempo e não cuidava da higiene da boca. O que ele tinha era uma endocardite, uma infecção grave em que as bactérias literalmente destroem as estruturas do coração por dentro. Tudo tinha começado na boca dele.

O Que Dizem os Estudos Sobre Boca e Coração?

Eu sei o que você está pensando: será que isso não é exagero de médico?

Um estudo publicado no Jornal Europeu de Cardiologia acompanhou quase 248 mil adultos saudáveis, com 40 anos ou mais, na Coreia do Sul, por cerca de nove anos. As pessoas com doença periodontal ou que já haviam perdido dentes apresentaram taxas mais altas de problemas cardíacos. E a má saúde bucal apareceu ligada também a maior risco de diabetes e de Alzheimer. A explicação proposta é sempre a mesma, aquela inflamação de baixo grau que, mantida por anos, vai desgastando os órgãos.

Uma revisão de estudos conduzida por pesquisadores de Harvard, publicada na revista JAMA, reuniu cerca de 2.800 pacientes internados em UTI. Entre eles, escovar os dentes duas vezes ao dia esteve associado a menor risco de morrer, menos tempo de internação e menos tempo de uso do oxigênio pelo tubo. Isso acontece porque a escovação reduz os casos de pneumonia, a infecção mais comum na UTI.

A boca é porta de entrada para o sangue e para o pulmão.

Quais São os Mitos Que Colocam o Seu Coração em Risco?

Mito 1: se os dentes parecem bonitos e não há mau hálito, está tudo bem. Esse foi exatamente o argumento usado na entrevista, e é um dos mais perigosos. A doença periodontal pode avançar de forma silenciosa, sem dor e sem cheiro perceptível, principalmente no início. A ausência de sintoma não é a ausência de doença. Um sorriso bonito por fora não garante uma gengiva saudável por dentro.

Mito 2: fumar charuto ou cigarro não piora a situação. Piora, e muito. O tabaco reduz o fluxo de saliva, e a saliva é uma das principais defesas naturais da boca contra as bactérias. Menos saliva significa acúmulo mais rápido de placa e de tártaro.

Mito 3: escovar os dentes depois de comer fora de casa é frescura. Não é. Eu sei que muita gente não faz, eu mesmo nem sempre faço, mas isso não torna o hábito um exagero.

Mito 4: só preciso ir ao dentista quando sentir dor. Quando a dor aparece, o problema quase sempre já está avançado. A limpeza e as avaliações regulares existem justamente para evitar que se chegue a esse ponto.

O caso do jurado virou notícia porque ele é uma figura pública, mas a mesma história se repete todos os dias em milhões de pessoas anônimas. Se você já cuida da pressão e do colesterol, coloque a boca na mesma lista de prioridades. Escovar os dentes pelo menos duas vezes ao dia, usar o fio dental e visitar o dentista com regularidade são medidas simples e baratas que protegem diretamente o seu coração.

Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica individualizada. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure seu médico.

Editor Chefe: Dr. Mozar Suzigan de Almeida, Médico Clínico Geral e Cardiologista, CRM 161706

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