Uma em cada três pessoas no mundo morre de doença cardiovascular, como infarto e AVC. E o AAS, o ácido acetilsalicílico, que você conhece como aspirina, é um dos remédios que mais salvam vidas nesse cenário. Mas será que todo mundo deveria tomar? Será que você não está deixando de se proteger? Ou será que está tomando sem precisar e correndo risco sem saber?
Deixa eu te explicar de um jeito simples. Pensa no AAS como um freio que você coloca nas plaquetas do seu sangue. Ele impede que elas grudem umas nas outras e formem coágulos. Isso é excelente para quem tem risco alto de entupir uma artéria. Mas um freio acionado na hora errada, no carro errado, trava a roda e causa acidente. Com o AAS é a mesma coisa: na pessoa certa ele protege, na pessoa errada ele só aumenta o risco de sangramento. É por isso que esse remédio não é para todo mundo.
Como cardiologista, eu ouço todos os dias no consultório a mesma frase: “Doutor, vi um vídeo, um vizinho falou, e comecei a tomar aspirina por conta própria.” Presta atenção nesse ponto, porque é exatamente aqui que mora o perigo. Vem comigo até o final que eu vou te explicar tudo sobre o AAS.
O que é o AAS e de onde ele veio
AAS é a sigla de ácido acetilsalicílico. A origem dele vem da natureza, de plantas como o salgueiro, que contém uma substância chamada salicilina. Os relatos da história mostram que até Hipócrates, o pai da medicina, já usava os extratos dessa planta para aliviar dores.
Foi só em 1899 que a indústria farmacêutica conseguiu patentear o ácido acetilsalicílico, transformá-lo em comprimido e dar a ele o nome comercial de aspirina. No começo, ele era famoso apenas para tirar dor e baixar febre.
A virada veio nas décadas de 1970 e 1980, quando estudos importantes da cardiologia mostraram que o AAS tinha o poder de reduzir a formação de coágulos e trombos em pacientes com infarto e AVC. É por isso que ele salva tantas vidas até hoje.
Como o AAS age no nosso corpo
Você já deve ter me ouvido falar que o AAS afina o sangue e dificulta a coagulação. Vou explicar de forma simples.
Ele age diretamente nas plaquetas, que são partes do sangue responsáveis por formar o coágulo. O AAS deixa essas plaquetas menos pegajosas, menos grudentas, e com isso dificulta a formação dos trombos que são perigosos. Em resumo, o AAS diminui a chance de você fazer um trombo. Simples assim.
Qual é a dose certa do AAS
Não existe uma dose única de AAS. Ela varia conforme o objetivo, e tudo isso sempre sob orientação médica.
- Dose baixa, na faixa de 81 a 100 mg por dia. É a dose mais comum que a gente usa na cardiologia, para prevenir infarto, AVC e outras tromboses.
- Dose de ataque, na faixa de 200 a 300 mg. É a que a gente usa em situação de emergência, na suspeita de infarto ou AVC. Nesses casos, o comprimido é mastigado, e é por isso que você já viu alguém mastigando aspirina numa emergência: mastigar ajuda o corpo a absorver o AAS mais rapidamente.
- Doses mais altas, acima de 500 mg, que têm efeito de tirar dor e inflamação. Hoje a gente usa muito menos assim, porque é uma dose alta e pode trazer mais efeitos colaterais.
Que fique claro: nenhuma dessas doses é para você definir sozinho. Eu não posso prescrever pelo blog. Quem ajusta a dose é o seu médico, olhando o seu caso.
Quem precisa tomar o AAS
Regra número um: AAS só com indicação médica. Não tome por conta própria. “Ah, vi um vídeo dizendo que é bom, vou tomar.” Não, por favor.
Existem grupos de pessoas que realmente se beneficiam:
- Pessoas em prevenção secundária, ou seja, que já têm problema no coração. Quem já teve infarto, AVC, angina, quem passou por cirurgia cardíaca, colocou ponte de safena, colocou stent ou já teve uma trombose. Nesses casos o risco de um novo evento é mais alto, e o AAS reduz esse risco.
- Pessoas com obstrução nas artérias. Fez um cateterismo, uma tomografia das coronárias, um ultrassom da carótida ou da perna e apareceu uma placa de gordura grande. Quem tem muita placa no corpo precisa do AAS para ajudar a prevenir complicações como infarto, trombose e AVC.
- Pacientes em contexto de emergência. No tratamento inicial do infarto e do AVC, a gente dá o AAS ali no pronto-socorro.
- Pessoas com risco cardiovascular muito alto. Mesmo sem nunca terem tido infarto ou AVC, algumas pessoas juntam vários fatores de risco, como diabetes, pressão alta, colesterol, tabagismo e idade. A gente calcula esse risco com calculadoras específicas que existem na literatura. Nesses casos muito selecionados, o especialista pode indicar o AAS, sempre pesando risco e benefício de caso a caso.
- Pacientes com pericardite, que é uma inflamação em volta do coração.
- Pacientes com doenças do sangue, como as trombofilias, que são alterações, muitas vezes genéticas, que dão facilidade para fazer trombose.
- Gestantes de alto risco, dentro de uma indicação bem definida pelo obstetra.
E aqui vai um recado que eu repito no consultório: nunca pare o AAS por conta própria, principalmente se você tem stent ou já teve infarto ou AVC. Se você está pensando em parar, converse antes com o seu cardiologista. Você pode se colocar em risco à toa. A decisão é sempre individualizada e compartilhada entre médico e paciente.
Os 11 grupos que não devem usar o AAS ou precisam de muita cautela
Tão importante quanto saber quem deve usar é saber quem não deve. Ao mesmo tempo que o AAS protege, ele aumenta o risco de sangrar. Se ele não tivesse nenhum risco, a gente colocaria na água e dava para todo mundo, concorda? Mas ele tem risco, e esse risco é principalmente de sangramento.
- Quem não tem histórico de doença cardíaca, não tem obstrução nas artérias e não tem um risco cardiovascular alto calculado. Para essa pessoa, o AAS não é indicado.
- Idosos muito frágeis, que muitas vezes têm risco aumentado de sangramento.
- Pessoas com histórico de úlcera no estômago, úlcera no intestino ou sangramento pelo intestino.
- Pacientes com doenças hematológicas que já aumentam o risco de sangramento por si só.
- Pessoas com alergia conhecida ao AAS ou a outros anti-inflamatórios.
- Pessoas com dengue ou suspeita de dengue. Nesse caso não se pode usar AAS.
- Pacientes com asma grave, porque alguns asmáticos podem ter crises desencadeadas pelo uso do AAS.
- Pacientes com insuficiência grave do fígado.
- Pessoas que tomam outros remédios que interagem com o AAS e mudam o efeito dessas medicações. Por isso é fundamental o seu médico saber tudo o que você usa.
- Pessoas que consomem muito álcool. O álcool irrita mais o estômago e aumenta o risco de sangramento, ainda mais porque muitas dessas pessoas já têm úlcera.
- Pessoas que vão fazer alguns tipos de cirurgia. Cirurgia de catarata e outras nos olhos, cirurgias no cérebro e na coluna. Em muitos desses casos o AAS precisa ser suspenso antes, sempre com orientação de quem vai operar. Nunca decida isso sozinho.
Quais são os efeitos colaterais do AAS
Todo remédio tem potenciais efeitos colaterais, e o AAS não é diferente. Os mais comuns são irritação no estômago, com azia e queimação, pequenos sangramentos na gengiva ao escovar os dentes e hematomas roxos que aparecem na pele com mais facilidade, muitas vezes depois de uma trombada boba na porta ou na parede.
A dica para reduzir o desconforto é tomar o AAS junto com alimento e, quando indicado, usar as versões com revestimento, com proteção gástrica. Em casos selecionados, o médico pode prescrever também um protetor de estômago. Mas lembre-se: o protetor reduz a irritação local, e não elimina completamente o risco de sangramento.
Existem ainda efeitos raros, porém graves, e aqui você precisa ficar atento. São sinais de alerta:
- Vômito com sangue.
- Fezes pretas, parecendo piche.
- Sangue nas fezes.
- Sinais de sangramento dentro do cérebro, num AVC hemorrágico.
- Reações alérgicas importantes ou uma crise de asma muito grave.
Se você suspeitar de qualquer um desses, procure atendimento médico o quanto antes.
Quatro mitos populares sobre o AAS
“Todo mundo acima de certa idade deveria tomar AAS para prevenir infarto e AVC.” Falso. A prevenção com AAS é para pouca gente: pessoas de alto risco cardíaco ou que já tiveram doença cardiovascular grave.
“Tenho pressão alta, logo preciso tomar AAS.” Falso. A hipertensão, isoladamente, não justifica o uso. “Mas Mozar, a pressão alta não aumenta o risco de infarto?” Sim, aumenta. Mas se a gente der AAS para uma pessoa que não tem risco alto de fato, a gente expõe essa pessoa a mais perigo do que benefício. Só entra na conta quando a pressão alta se soma a outras doenças e o risco cardiovascular total dá alto.
“Tomar AAS me protege 100% de infarto e AVC.” Falso. O AAS reduz o risco de quem tem indicação, mas não zera a chance.
“O efeito do AAS no sangue é para sempre.” Falso. O efeito dura mais ou menos sete dias. Se você para o AAS hoje, em cerca de uma semana as plaquetas novas já estão funcionando normalmente, sem a ação do remédio.
Veja a explicação completa no vídeo
Eu gravei um vídeo detalhado sobre o AAS no meu canal, explicando cada uma dessas partes com calma. Veja a explicação completa assistindo ao vídeo no YouTube: www.youtube.com/oseucardiologista
O que guardar sobre o AAS
- O AAS age deixando as plaquetas menos grudentas e reduzindo a formação de trombos.
- A dose varia conforme o objetivo e é sempre definida pelo médico.
- Ele é indicado para quem já teve infarto ou AVC, tem obstrução nas artérias, tem risco cardiovascular muito alto ou condições específicas como pericardite, trombofilias e gestação de alto risco.
- Ele não é para quem tem baixo risco, úlcera, alergia, asma grave, dengue e várias outras situações de sangramento.
- O maior risco do AAS é o sangramento, e os sinais de alerta são vômito com sangue, fezes pretas e sangue nas fezes.
- Nunca comece nem pare o AAS por conta própria.
Família do coração, o AAS é sem dúvida uma das maiores ferramentas da medicina. Ele mudou a história do tratamento do infarto e do AVC e salva muitas vidas. Mas ele não é isento de riscos e definitivamente não é para todo mundo.
Conheça o seu risco cardiovascular. Converse com o seu cardiologista, pergunte se o AAS é indicado para o seu caso e entenda os benefícios e os riscos antes de tomar. Se você conhece alguém que toma aspirina todos os dias sem indicação médica, compartilhe esse conteúdo. Pode ser exatamente a informação que essa pessoa precisava.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica individualizada. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure seu médico.
Editor Chefe: Dr. Mozar Suzigan de Almeida, Médico Clínico Geral e Cardiologista, CRM 161706
Agende sua consulta: wa.me/5511930433976
Siga nas redes sociais: YouTube: www.youtube.com/oseucardiologista Instagram: @dr.mozarsuzigan
