Você sabia que existe um remédio capaz de reduzir o risco de infarto e AVC, mas que, tomado sem indicação correta, pode causar exatamente o tipo de complicação que ele deveria prevenir? Família do coração, hoje quero compartilhar com vocês a verdade sobre o AAS, o ácido acetilsalicílico, popularmente conhecido como Aspirina.
Pensa no AAS como um freio que age sobre as plaquetas do seu sangue. Um freio bem ajustado evita que o carro derrape e cause um acidente. Mas um freio mal calibrado, usado na hora errada ou por quem não precisa dele, pode travar a roda no momento errado e gerar um problema novo. É exatamente esse equilíbrio que precisa existir no uso do AAS.
O que é o AAS e sua história
A sigla significa ácido acetilsalicílico. Ele tem origem natural em plantas como o salgueiro, que contém a substância salicilina, cujo extrato já era utilizado por Hipócrates para aliviar dores. Em 1899, essa substância foi sintetizada e patenteada pela indústria farmacêutica com o nome de Aspirina.
Inicialmente voltada para o tratamento de dor e febre, nas décadas de 1970 e 1980 estudos na cardiologia demonstraram sua capacidade revolucionária de reduzir coágulos e trombos, salvando vidas em casos de infarto e AVC. Foi esse achado que transformou o AAS em um dos pilares da cardiologia preventiva.
Como o AAS age no corpo
Eu sei o que você está pensando: como um remédio tão antigo e tão simples consegue proteger o coração? O AAS atua diretamente nas plaquetas, componentes do sangue responsáveis pela coagulação. Ele torna as plaquetas menos pegajosas, o que impede que se agrupem umas com as outras e formem trombos ou coágulos perigosos dentro das artérias.
É esse mecanismo que diminui as chances de complicações cardiovasculares graves.
Qual é a dose certa de AAS
A dosagem varia de acordo com a finalidade do tratamento.
A dose baixa, entre 81 e 100 mg por dia, é a mais comum na cardiologia para a prevenção contínua de infarto, AVC e tromboses.
A dose de ataque, entre 200 e 300 mg, é utilizada no pronto-socorro em contextos de emergência, sob suspeita de infarto ou AVC agudo. Nesses casos, os comprimidos devem ser mastigados para acelerar a absorção.
A dose alta, acima de 500 mg, era usada no passado para tratar dor e inflamações. Hoje é menos recomendada, devido ao maior risco de efeitos colaterais.
Quem realmente precisa tomar o AAS
Que fique claro, o medicamento deve ser utilizado exclusivamente sob orientação médica. Os grupos que se beneficiam do uso incluem pessoas em prevenção secundária, ou seja, que já sofreram infarto, AVC, angina, ou que passaram por cirurgia de ponte de safena ou colocação de stent.
Também se beneficiam pessoas com obstrução comprovada por placas de gordura nas artérias, identificadas em exames como cateterismo, tomografia de coronárias ou ultrassom de carótidas, além de pacientes em atendimento inicial de emergência hospitalar.
Há ainda pessoas sem histórico de infarto, mas classificadas em calculadoras médicas como de muito alto risco cardiovascular, considerando fatores como diabetes, pressão alta, colesterol alto, tabagismo e idade avançada. Completam essa lista pacientes com pericardite, que é a inflamação no coração, pacientes com doenças no sangue que causam facilidade para trombose, conhecidas como trombofilias, e gestantes com gravidez de alto risco, sempre sob avaliação médica específica.
Os onze grupos que não devem usar ou precisam de muita cautela
Embora proteja o sistema cardiovascular, o AAS eleva a probabilidade de sangramentos. Por isso, existem grupos que não devem usar o medicamento ou que precisam de cuidado redobrado.
- Pessoas de baixo risco cardiovascular que nunca tiveram histórico de doença arterial
- Idosos muito frágeis, pelo risco acentuado de hemorragias
- Pessoas com histórico de úlceras ou sangramentos no estômago e intestino
- Portadores de doenças hematológicas que predisponham a hemorragias
- Pacientes com alergia conhecida ao AAS ou a outros anti-inflamatórios
- Pessoas com suspeita ou diagnóstico de dengue
- Pacientes com asma grave, já que o AAS pode desencadear crises
- Indivíduos com insuficiência hepática grave
- Pacientes que usam outros medicamentos com interações medicamentosas perigosas
- Pessoas com alto consumo de álcool, o que irrita a mucosa gástrica e propicia úlceras
- Pacientes que passarão por determinadas cirurgias, como procedimentos no cérebro ou na coluna
O que você pode sentir: efeitos colaterais
Os sintomas mais comuns envolvem irritação estomacal, como azia e queimação, pequenos sangramentos na gengiva durante a escovação e o aparecimento fácil de manchas roxas na pele após pequenos impactos.
Para mitigar o desconforto estomacal, o médico pode recomendar a ingestão do remédio junto a alimentos, o uso de versões com revestimento gastroprotetor ou a associação com protetores gástricos, como omeprazol ou pantoprazol.
Os efeitos raros e graves compreendem hemorragias gastrointestinais severas, que podem se manifestar como vômito com sangue ou fezes escuras, além de AVC hemorrágico e crises severas de asma ou alergia.
Mitos populares sobre o AAS
“Todo mundo, a partir de uma certa idade, deve tomar AAS.” Falso. O uso preventivo se restringe a perfis de alto risco ou a pessoas com doenças vasculares já estabelecidas.
“Quem tem pressão alta precisa tomar AAS.” Falso. A hipertensão, isoladamente, não justifica o uso do medicamento. O paciente precisa passar por uma avaliação de risco global para não ser exposto a perigos desnecessários.
“O AAS protege cem por cento contra infarto e AVC.” Falso. Ele reduz o risco estatístico em quem possui indicação para o uso, mas não elimina completamente a chance de ocorrência desses eventos.
“O efeito do remédio no sangue dura para sempre.” Falso. Após a interrupção do uso, o efeito nas plaquetas dura cerca de sete dias, período necessário para o corpo produzir novas plaquetas livres da ação do medicamento.
O que vale a pena levar deste post
- O AAS age tornando as plaquetas menos pegajosas, reduzindo a formação de trombos e coágulos
- A dose varia conforme a finalidade: baixa para prevenção contínua, de ataque para emergências, e alta, hoje menos usada, para dor e inflamação
- O uso preventivo é indicado principalmente para quem já teve evento cardiovascular ou está em grupo de muito alto risco
- Existem onze grupos de pessoas que não devem usar o AAS ou que precisam de cautela redobrada
- Os efeitos colaterais vão de irritação estomacal leve a hemorragias graves, em casos raros
- O efeito do remédio nas plaquetas desaparece em cerca de sete dias após a interrupção
Prevenção é decisão médica, não escolha por conta própria
O AAS revolucionou a medicina e o tratamento cardiovascular, mas precisa ser encarado com responsabilidade, devido ao risco de sangramentos que ele também carrega. Eu não posso prescrever esse ou qualquer outro medicamento por aqui, e reforço sempre a importância de consultar um especialista para calcular o seu risco cardiovascular individual e definir se o AAS é realmente adequado para o seu caso.
Família do coração, AAS não é remédio de prateleira para todo mundo. É uma ferramenta poderosa, que exige avaliação cuidadosa de quem entende do assunto. Se você quer entender o seu risco cardiovascular de verdade, estou aqui para te ajudar.
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