O Brasil já eliminou o sarampo uma vez. E, por causa da queda na vacinação, estamos vendo a doença aparecer novamente.
O sarampo é uma das doenças mais contagiosas que existem.
Antes da vacinação em massa ganhar escala global — a partir dos anos 1960 e 1970, com o Programa Ampliado de Imunizações da OMS iniciado em 1974 —, o sarampo matava cerca de 2,6 milhões de pessoas por ano no mundo. Não é uma doença do passado por acaso. É uma doença do passado por causa da vacina.
O vírus fica ativo no ar e em superfícies por até duas horas depois que a pessoa infectada passou pelo local. Ou seja, você pode se contaminar num corredor de escola ou numa sala de espera sem nunca ter cruzado diretamente com o doente. E uma pessoa infectada transmite o vírus desde quatro dias antes até quatro dias depois de aparecerem as manchas na pele.
Quando quase todo mundo está vacinado, o vírus não encontra por onde passar e para de circular. Mas cada pessoa não vacinada é uma fonte de transmissão e é exatamente isso que está começando a acontecer no Brasil.
O que é o sarampo e por que ele é tão perigoso:
O sarampo é uma doença viral muito contagiosa, que afeta qualquer pessoa, independentemente da idade. Crianças pequenas têm maior risco de complicações graves e é transmitida por gotículas do nariz, da boca e da garganta de quem está infectado, pela tosse, pelo espirro e pelo contato próximo.
Muita gente acha que é só uma “doencinha de manchas na pele”. Não é. O sarampo pode causar complicações graves, como cegueira, encefalite, que é uma inflamação do cérebro, diarreia intensa com risco de desidratação, infecções de ouvido e pneumonia. E parte dessas complicações pode levar à morte.
As mortes por sarampo costumam vir dessas complicações, e são mais frequentes em crianças menores de cinco anos e em adultos com mais de 30 anos.
Quais os sintomas do sarampo e quando eles aparecem:
O sarampo não aparece de uma vez. Ele segue uma sequência, e conhecer essa sequência ajuda a desconfiar cedo. Os sintomas costumam surgir entre 8 e 12 dias depois da infecção. O primeiro sinal costuma ser a febre alta e dura de quatro a sete dias.
Junto com a febre, ou logo depois, aparecem:
- Coriza, aquele nariz escorrendo.
- Tosse.
- Olhos vermelhos e lacrimejantes.
- Pequenas manchas brancas na parte de dentro da bochecha (manchas de Koplik)
Depois de alguns dias, surge a erupção na pele, o exantema. Ela começa no rosto e na parte de cima do pescoço e vai se espalhando pelo corpo ao longo de cerca de três dias, chegando até as mãos e os pés. Essa erupção dura de cinco a seis dias e depois some. Entre a exposição ao vírus e o aparecimento das manchas, costumam se passar de 7 a 18 dias.
Dado importantíssimo: os pacientes devem ser isolados de 4 dias antes a 4 dias após o início do exantema, que são as lesões na pele.
Tem tratamento para o sarampo?
Não existe tratamento antiviral específico contra o vírus do sarampo. A maioria das pessoas se recupera em duas a três semanas, mas o que a medicina faz é dar suporte, não matar o vírus.
Esse suporte inclui garantir boa nutrição, hidratação adequada e tratar a desidratação, além de antibióticos quando surgem infecções bacterianas associadas, como pneumonia e infecções de ouvido. A OMS recomenda que toda criança com diagnóstico de sarampo receba duas doses de vitamina A, com intervalo de 24 horas, porque isso ajuda a prevenir lesões nos olhos e reduz o risco de morte.
Quem corre mais risco:
Nem todo mundo tem o mesmo risco diante do sarampo. Estão mais vulneráveis:
- Crianças pequenas não vacinadas, que têm o maior risco de pegar a doença e de sofrer complicações, incluindo a morte.
- Gestantes não imunizadas.
- Pessoas em uso de imunossupressores (transplantados, quimioterapia)
- Pessoas com o sistema imunológico enfraquecido, por HIV ou outras doenças.
- Crianças com desnutrição ou deficiência de vitamina A.
Mas que fique claro: qualquer pessoa não imunizada, que não tomou a vacina e nunca teve a doença, pode se infectar.
Como está a situação do sarampo no Brasil:
O Brasil já eliminou a circulação do vírus do sarampo no passado. Depois do último registro de casos em 2015, o país recebeu em 2016 a certificação de eliminação da doença pela Organização Pan-Americana da Saúde. Em 2016 e 2017, não houve casos confirmados.
Mas a partir de 2018 o vírus voltou a circular, associado ao fluxo migratório e à redução das coberturas vacinais. Em 2019, o Brasil perdeu a certificação após manter a transmissão do vírus por mais de 12 meses. Entre 2018 e 2022, foram registrados mais de 39 mil casos no país, com maior concentração em 2019.
Depois veio uma melhora. A partir de 2021 houve queda acentuada, chegando a 41 casos em 2022. Em 2023, nenhum caso confirmado. Em 2024, apenas cinco casos, a maioria importada ou ligada a viagens internacionais. E em novembro de 2024 o Brasil recebeu de novo a recertificação de eliminação da circulação endêmica do sarampo.
Só que em 2025 os números voltaram a subir: segundo o Ministério da Saúde foram 38 casos confirmados no país, em vários estados.
Os novos casos de 2026 e o surto em São Paulo
Agora chegamos ao presente. Segundo a Secretaria Estadual da Saúde de São Paulo, o estado confirmou o 15º caso de sarampo em 2026, uma criança de 1 a 2 anos, de Guarulhos, na região metropolitana, sem histórico de vacinação. Do total desses casos no estado, a maioria está na capital, com registros também em São Bernardo do Campo.
O maior problema é que a cobertura vacinal em São Paulo caiu. Em 2026, Segundo a Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, a primeira dose da tríplice viral estava em 77,5% e a segunda em 65,5%, bem abaixo da meta de 95% para ambas. Só para comparar, em 2025 a cobertura vacinal nacional alcançou 92,9% para a primeira dose da vacina tríplice viral e 78,3% para a segunda dose.
Diante disso, o Ministério da Saúde recomendou ampliar a vacinação. Entre 3 de agosto e 1º de setembro, durante a Campanha de Multivacinação, pessoas de 6 meses a 59 anos poderão se vacinar contra o sarampo na capital paulista, em Guarulhos e em São Bernardo do Campo, mesmo que já tenham o esquema completo e sem precisar comprovar histórico vacinal anterior.
Uma observação importante para não gerar alarme exagerado. O próprio Ministério da Saúde deixa claro: casos isolados ou importados não significam o retorno do sarampo como problema de saúde pública. Mas eles são um recado direto de que precisamos manter altas as coberturas vacinais. O Brasil ainda mantém o status de país livre da doença. A questão é não jogar isso fora.
Como funciona a vacinação contra o sarampo no Brasil:
A vacina é a principal forma de prevenção, e está disponível de graça no SUS. Ela existe há mais de 50 anos, é segura, eficaz e barata. Um ponto que reforça a confiança: entre 2000 e 2023, estima-se que a vacina contra o sarampo evitou 60,3 milhões de mortes no mundo. (MMWR Morb Mortal Wkly Rep.2024 Nov 14;73(45):1036-1042. doi: 10.15585/mmwr.mm7345a4. Progress Toward Measles Elimination – Worldwide, 2000-2023)
O esquema recomendado pelo Ministério da Saúde funciona assim, na rotina:
- Aos 12 meses, a criança recebe a primeira dose, com a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola.
- Aos 15 meses, recebe a segunda dose, preferencialmente com a tetraviral, que inclui também a varicela.
- Pessoas de 5 a 29 anos que perderam a vacinação devem ter duas doses da tríplice viral.
- Adultos de 30 a 59 anos devem ter pelo menos uma dose da tríplice viral.
São necessárias duas doses para garantir a proteção. Isso porque cerca de 15% das crianças não desenvolvem imunidade só com a primeira dose. A segunda dose existe para cobrir justamente essa parcela.
Mitos e dúvidas comuns sobre o sarampo e a vacina:
- Sarampo é uma doença fraca, coisa de antigamente? Não. Pode causar cegueira, pneumonia, inflamação no cérebro e morte. E antes da vacina em massa, matava milhões por ano no mundo.
- Se meu filho já tomou uma dose, está protegido? Não totalmente. Cerca de 15% das crianças não ficam imunes só com a primeira dose. Por isso a segunda dose é essencial.
- Só quem viaja para fora precisa se preocupar? Não. Muitos casos começam com viajantes que trazem o vírus, mas ele se espalha justamente entre as pessoas não vacinadas de dentro do país. Isso já aconteceu no Brasil: o vírus veio de fora, mas se propagou em comunidades com baixa cobertura vacinal.
- Adulto não precisa de vacina de sarampo? Depende. Quem tem entre 30 e 59 anos deve ter pelo menos uma dose da tríplice viral, e nas cidades em surto a recomendação foi ampliada para todos de 6 meses a 59 anos.
O sarampo voltar a circular não é azar nem obra do acaso. É a consequência direta de deixarmos de vacinar. Pega a caderneta de vacinação, sua e da sua família, e confere se as duas doses da tríplice viral estão em dia. Se faltar alguma, ou se você não tiver certeza, procure a unidade de saúde mais próxima. A vacina é de graça, e é a forma mais simples de proteger quem você ama e quem não pode se vacinar.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica individualizada. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure seu médico.
Editor Chefe: Dr. Mozar Suzigan de Almeida, Médico Clínico Geral e Cardiologista, CRM 161706
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Fontes: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/sarampo/situacao-epidemiologica, https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/07/estado-de-sp-confirma-o-15o-caso-de-sarampo-em-2026.shtml, https://www.paho.org/pt/topicos/sarampo, https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/sarampo, MMWR Morb Mortal Wkly Rep.2024 Nov 14;73(45):1036-1042. doi: 10.15585/mmwr.mm7345a4. Progress Toward Measles Elimination – Worldwide, 2000-2023, Measles and Measles Vaccination, A Review. JAMA Pediatr, doi:10.1001/jamapediatrics.2016.1787, 5, Measles 2025. The New England Journal of Medicine. 2025. Do LAH, Mulholland K.
