Quase um terço dos adultos saudáveis acima de 60 anos toma AAS todos os dias sem precisar. E isso sem contar as pessoas que tomam por conta própria, sem nunca ter conversado com o médico sobre o assunto. O AAS é um comprimido que custa centavos, tem mais de 100 anos de história e já salvou milhões de vidas, mas tomado pela pessoa errada pode causar sangramento grave no estômago, no intestino e até dentro do cérebro.
Dentro do nosso sangue existem as plaquetas, que funcionam como peças pequenininhas de um quebra-cabeça: quando se encaixam umas nas outras, formam uma contenção contra sangramento. Isso é ótimo quando você se corta. O problema é quando esse mesmo encaixe acontece dentro de uma artéria.
1. Como o AAS age dentro do corpo
Você já deve ter ouvido que o AAS afina o sangue. A expressão não é tecnicamente correta, mas ajuda a entender o conceito.
Quando a gente fala de infarto e de AVC isquêmico, o problema na maioria das vezes não é a gordura que foi crescendo devagar até fechar a artéria por completo. Imagina que a parede da sua artéria tem uma plaquinha de gordura grudada há muitos anos, quietinha, com o sangue passando tranquilamente. Num dia qualquer, por estresse, por aumento de pressão, por uma inflamação, por um exercício intenso, essa plaquinha se rompe. O corpo entende aquilo como um ferimento, e as plaquetas correm para o local, se amontoam e formam um coágulo em cima da placa rompida. Esse coágulo pode entupir a artéria inteira em questão de minutos, até de segundos. Se acontece no coração, chamamos de infarto. Se acontece no cérebro, chamamos de AVC isquêmico.
O AAS deixa as plaquetas menos propensas a se juntar e dificulta a formação desse coágulo. É por isso que ele existe na cardiologia.
2. De onde vem o AAS
AAS é a sigla de ácido acetilsalicílico. A origem está na natureza, numa árvore chamada salgueiro, que produz uma substância chamada salicilina. Existem relatos de que Hipócrates, considerado o pai da medicina, já usava extratos dessa planta na Grécia antiga para aliviar dor e febre.
Ou seja, a humanidade usa esse princípio ativo há milhares de anos. Mas foi apenas em 1899 que a indústria farmacêutica conseguiu transformar isso num comprimido, com o nome comercial de aspirina. Durante décadas ele foi famoso só como analgésico e antitérmico. A virada veio nas décadas de 1970 e 1980, quando estudos da cardiologia mostraram que o AAS reduzia a formação de coágulos e trombos dentro das artérias.
3. Existe uma dose única de AAS?
Não. A dose varia conforme o objetivo, e o AAS sempre deve ser usado sob orientação médica.
A dose que a gente mais usa na cardiologia é a dose baixa diária, aquela de prevenção, para proteger contra infarto, AVC e tromboses em quem tem indicação. Existe também a dose de ataque, feita na emergência, naquele paciente que está infartando na nossa frente, tendo um AVC no pronto-socorro, dentro da ambulância ou na UTI. Nessa situação específica o comprimido deve ser mastigado, porque isso faz o AAS ser absorvido mais rápido. É por isso que você já viu em filme uma pessoa com dor no peito mastigando o comprimido.
E existem as doses mais altas, que têm efeito anti-inflamatório, voltado a tirar inflamação e dor. Na cardiologia a gente usa muito menos essas doses hoje, mas elas aparecem em casos como a pericardite, que é a inflamação da camada que recobre o coração, e por pouco tempo, não todos os dias.
4. Quem realmente precisa tomar o AAS
Regra número um, e eu repito isso todo dia no consultório: AAS todo dia só deve ser usado com indicação médica. Não tome por conta própria.
Eu sei que você já ouviu de um vizinho, de um amigo, já viu em vídeo por aí que a aspirina é boa para todo mundo. Não é assim. Os grupos que se beneficiam são estes:
- Pessoas em prevenção secundária, ou seja, quem já tem problema no coração ou nos vasos. Quem já teve infarto, quem já teve AVC, quem tem angina, quem passou por cirurgia cardíaca, quem colocou ponte de safena ou stent, quem já teve trombose numa artéria. O maior risco para alguém ter um infarto é já ter tido um. Esse é o cenário em que o AAS mais protege, e o benefício supera o risco.
- Pessoas com obstrução confirmada nas artérias, vista em cateterismo, angiotomografia de coronárias, ultrassom de carótidas ou das pernas. Mas não é toda plaquinha que justifica o AAS. Só a placa importante, acima de 50%. Quem tem uma plaquinha pequena na carótida ou uma plaquinha de 20% nas coronárias não tem indicação.
- Pacientes em emergência cardiovascular, no tratamento do infarto agudo ou do AVC dentro do pronto-socorro.
- Pessoas com risco cardiovascular alto calculado por escores e por avaliação do cardiologista, que nunca tiveram infarto ou AVC. Isso se chama prevenção primária, é mais seletiva, e é onde mora a maior confusão.
Existem ainda dois casos específicos. Pacientes com trombofilia, que são alterações muitas vezes genéticas que facilitam a formação de trombos e coágulos, e gestantes de alto risco, que dentro de uma indicação precisa definida pelo obstetra usam AAS durante a gestação para proteger a saúde delas e do feto.
5. O que diz a diretriz sobre prevenção primária
A diretriz americana de 2022, que revisou 13 estudos clínicos com mais de 161.000 participantes, definiu o seguinte.
Para adultos entre 40 e 59 anos com risco cardiovascular calculado igual ou maior que 10% nos próximos 10 anos, a decisão de usar AAS todos os dias pode ser considerada caso a caso, pesando sempre risco e benefício.
Para adultos com mais de 60 anos que nunca tiveram infarto ou AVC, que não têm aquelas placas grandes e que não têm trombofilia, a recomendação é não usar AAS todos os dias para prevenção. Nessa faixa etária, o risco de sangramento tende a superar o benefício.
6. O risco que ninguém conta: o sangramento
Se o AAS fosse tão bom assim e não tivesse risco, a gente colocaria na água e daria para todo mundo.
A própria diretriz americana mostrou que o AAS em dose baixa esteve associado a um aumento de 58% no risco de sangramento gastrointestinal grave, no estômago e no intestino, e a um aumento de 31% no risco de sangramento dentro do crânio. Isso para quem não deveria estar usando. Se você usa por indicação médica, fique tranquilo, você está se protegendo.
7. As 11 situações em que o AAS exige cuidado ou está proibido
Se você se encaixa em qualquer uma delas, converse com o seu médico antes de usar:
- Não ter histórico de doença cardíaca, nem de doença cerebral, nem obstrução nas artérias, e não ter risco cardiovascular alto. Nesse caso o AAS não é para você.
- Idosos muito frágeis. Com o envelhecimento o risco de sangramento vai subindo, e em muitos idosos não vale a pena manter o AAS.
- Histórico de úlcera no estômago ou no intestino, ou sangramento digestivo prévio. Se a causa foi conhecida, tratada, e o paciente precisa do AAS porque teve infarto, a gente dá, protege o estômago e fica de olho. Mas é conversa para ter com o médico.
- Doenças hematológicas, que já aumentam o risco de sangramento por si só.
- Alergia ao AAS.
- Dengue ou suspeita de dengue. Aqui o AAS é proibido. A dengue derruba as plaquetas do sangue, e o paciente já sangra com mais facilidade. Somar um remédio que atrapalha as plaquetas de se unirem aumenta muito esse risco.
- Asma grave. Alguns pacientes podem ter crises sérias desencadeadas pelo AAS. É raro, mas acontece.
- Insuficiência grave no fígado.
- Uso de outros remédios que interagem com o AAS, como anti-inflamatórios, corticoides e anticoagulantes.
- Consumo elevado de bebida alcoólica, porque o álcool já irrita o estômago e aumenta o risco de úlcera e de sangramento.
- Cirurgias programadas, principalmente no cérebro, algumas da coluna e algumas dos olhos. Em muitos desses casos o AAS precisa ser suspenso alguns dias antes, sempre com orientação do seu cardiologista.
Sobre esse último ponto, o erro que eu vejo acontecer: o paciente vai operar e para o AAS porque o cirurgião desavisado pediu. Muitas cirurgias não exigem parar o AAS. Se o paciente tem um stent no coração, mesmo que ele sangre um pouquinho mais na cirurgia, eu preciso proteger aquele stent de um infarto. Esse paciente não pode parar.
E nunca pare o AAS por conta própria, principalmente se você tem stent, já teve infarto ou já teve AVC. Se o médico te deu, converse com ele antes de parar. Este texto é para te orientar, não para mandar você fazer qualquer coisa.
8. Os efeitos colaterais que você precisa reconhecer
Todo remédio tem efeitos colaterais potenciais. Os mais comuns do AAS são irritação leve no estômago com náusea e queimação, pequenos sangramentos na gengiva ao escovar os dentes e aqueles roxinhos que aparecem na pele com mais facilidade. São sintomas pequenos, controláveis e não graves.
Para reduzir o desconforto gástrico, tome o AAS junto ou depois do almoço ou do jantar, nunca de estômago vazio. Existem também versões com revestimento, que protegem o estômago, e em casos selecionados o médico pode prescrever um protetor gástrico.
Os efeitos graves, por sorte, são muito raros: vômito com sangue, fezes pretas e escurecidas parecendo borra de café, que é sangue digerido e a gente chama de melena, sangue vivo nas fezes, sinais de sangramento dentro do cérebro, que é o AVC hemorrágico, e reações alérgicas muito graves com inchaço da boca, falta de ar e crise de asma. Se você suspeitar de qualquer um desses sinais, procure atendimento médico.
9. Quatro mitos sobre o AAS
“Todo mundo acima de certa idade deveria tomar AAS para prevenir infarto e AVC.” Falso, e perigoso. Para a maioria dos adultos mais velhos sem doença cardíaca, a resposta é não usar.
“Tenho pressão alta, logo preciso tomar AAS.” Falso. A pressão alta é fator de risco para doença cardíaca e para infarto, mas a hipertensão isoladamente não justifica o uso do AAS. Se eu dou AAS para uma pessoa que tem pressão alta e não tem risco cardíaco alto, eu estou expondo essa pessoa a mais perigo do que benefício. O AAS entra quando a pressão alta vai se somando a outras condições que aumentam o risco.
“Tomar AAS me protege 100% de infarto e AVC.” Falso. Nenhum remédio zera a chance, porque existem várias causas dessas doenças. Por isso é importante cuidar de todos os outros fatores de risco.
“O efeito do AAS no sangue é para sempre.” Falso. O efeito dura enquanto as plaquetas estiverem expostas ao AAS, mais ou menos 7 dias. Se você parar hoje, em cerca de uma semana as plaquetas novas que o seu corpo produziu já estarão funcionando normalmente. É justamente por isso que, em certos casos, o cirurgião pede para suspender dias antes do procedimento.
10. O melhor remédio é o indicado para a pessoa certa
O AAS mudou o tratamento do infarto e do AVC e salva vidas todos os dias. Eu vejo isso na UTI e no consultório. Mas ele não é isento de riscos e não é para todo mundo. O melhor remédio é aquele indicado para a pessoa certa, na dose certa, no momento certo.
Se você toma AAS todo dia e nunca perguntou o porquê, leve a caixa na sua próxima consulta e peça para o seu cardiologista revisar a indicação junto com o seu risco cardiovascular. E se você conhece alguém que toma por conta própria, mande esse conteúdo para essa pessoa.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica individualizada. Em caso de sintomas ou dúvidas, procure seu médico.
Editor Chefe: Dr. Mozar Suzigan de Almeida, Médico Clínico Geral e Cardiologista, CRM 161706
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